Translate

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

O gosto pela leitura

Antonio Barbosa*

Felicíssimo o artigo do escritor Roberto de Queiroz, 'A formação do leitor literário na escola' (Diario, 02.09.14). Ele escreveu: "(...) defendo a ideia de que a leitura de textos literários na escola pode ser uma leitura sem amarras (uma leitura que seduz e encanta o leitor e induz ao gostar de ler), mas a mediação do professor desempenha um papel fundamental na realização desse processo". E mais: "(...) o espaço escolar é o lugar da experimentação e esta se dá à medida que o aluno é desafiado a ler textos (...); a escola precisa mostrar aos alunos a importância da leitura e o conhecimento dos aspectos que a envolvem, além de apresentar, de forma qualificada, textos (...) sob o olhar atento e orientador de um professor-leitor".

Esses entrechos acima foram pinçados do artigo do escritor Roberto de Queiroz, e serve as nossas reflexões por dois motivos principais. O 1º; há uma preocupação no reino do MEC quanto ao elevado número de jovens analfabetos funcionais: leem, mas não sabem interpretar o que leram. O 2º; o envolvimento do professor é fundamental para que o aluno tenha um interesse (maior) pela leitura a partir da sala de aula. O enunciado, aliás, me diz muito de perto, por ter aprendido a gostar de ler através do ex-professor Marcos Vilaça quando ginasiano. Ele nos estimulava, citando autores, nacionais e internacionais e, teatralizou o júri simulado de Dreyfus, como prática de interpretação e desinibição. Na faculdade o saudoso professor Marcos de Barros Freire fazia com que lêssemos os editoriais e artigos de opinião dos nossos jornais, que nos poria antenados com os acontecimentos importantes da política, dos negócios, das artes, etc.

Destarte, nesse espaço que o Diario nos concede, já dei alguns exemplos de adolescentes que tornaram-se escritores, como foi o caso de Felipe (17 anos), que escreveu o romance "Desejos Obscuros" e de Kaline Felix (16 anos) que escreveu "Eu Odeio Amar Você" e, de João Vitor (13 anos), que está terminando um livro de contos ainda sem título (ver; "Os escritores adolescentes e a presidenta", Diario de 12.07.2013). Os dois primeiros alunos citados estudam no Centro de Ensino Supletivo do Sesi/Centro, e o último, na Unidade Roberto Egídio de Azevedo.

* Antonio Barbosa é diretor regional do Sesi/PE
(Artigo publicado no Diario de Pernambuco, 12/09/2014, Opinião, p. A8)

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

A formação do leitor literário na escola

Roberto de Queiroz
GREG/DP
A escritora Tatiana Belinky, falando sobre como estimular o prazer da leitura na escola, disse o seguinte numa entrevista: “Há coisas que não se manda fazer, elas acontecem. E a leitura é uma delas. O leitor é livre. Você lê para você mesmo, para seu divertimento, para sua emoção, não tem obrigação de coisa nenhuma. Você começa a ler e vai logo perceber que é bom. Uma história bem contada pode fazer alguém chorar ou rir, isto é, pode prender o leitor” (Na ponta do lápis, nº 12, dez. 2009). Mas como fica a liberdade do leitor iniciante? Como é que alguém pode escolher o que não conhece?

Para Caio Riter, se cada aluno tem a liberdade de ir à biblioteca e escolher o livro a ser lido, ele é o responsável por sua formação leitora. Assim, quando é convidado para apresentar, apresenta “sua visão de leitura, não havendo na sala de aula espaço para a interação com diferentes leitores, em diferentes níveis de leitura, visto que poucos (ou apenas um) terão lido aquele texto, correndo-se o risco, inclusive, de o próprio professor não ter a mínima noção sobre o que trata cada um dos livros lidos por seus alunos” (A formação do leitor literário em casa e na escola, Biruta, 2009).

O escritor italiano Italo Calvino (1923-1985) disse certa vez que “ler é um ato de liberdade, mas para quem já [...] foi formado pela escola como leitor. Ou seja, o espaço escolar é o lugar da experimentação e esta se dá à medida que o aluno é desafiado a ler textos que passaram pelo critério de qualidade do professor e/ou que atendem a algum objetivo, cuja realização se faz necessária”.

Desse modo, a liberdade do leitor iniciante pode ser respeitada “quando a escola, através da obrigatoriedade da leitura e de uma prática metodológica que assegure espaço para a reflexão e para o deleite, forma leitores qualificados. A escola precisa mostrar aos alunos a importância da leitura e o conhecimento dos aspectos que a envolvem, além de apresentar, de forma qualificada, textos [...] cuja leitura, se não realizada na escola, sob o olhar atento e orientador de um professor-leitor, muitas vezes jamais ocorrerá” (Riter, op. cit.).

Em suma, pedir simplesmente que os alunos leiam um texto qualquer, sem a análise criteriosa e sem o planejamento prévio do professor, é coisa que pode parecer aula de leitura a um desavisado, mas, obviamente, não corresponde aos critérios de leitura como conteúdo em sala de aula. Ou seja, defendo a ideia de que a leitura de textos literários na escola pode ser uma leitura sem amarras (uma leitura que seduz e encanta o leitor e induz ao gostar de ler), mas a mediação do professor desempenha um papel fundamental na realização desse processo.


(Artigo publicado no Diario de Pernambuco, 02/09/2014, Opinião, p. A6)

segunda-feira, 28 de julho de 2014

Ode à velha Camela

Roberto de Queiroz

Velha Camela, poluída “não és”, super-habitada “não és”, sem recursos “não és”, suja “não és”. Desumana, “sim”. Mas és minha e eu não te troco por outra. Aqui nasceram meus sonhos, meus anseios, a vontade de vencer obstáculos, a febre de trabalho e a criatividade.

Velha Camela, minha deusa, minha namorada. “Nasceste ontem, renasces hoje.” Vejo-te viva, vejo-te imortal. Vejo-te descobrindo o espírito de nosso tempo, “em que ricos e poderosos são fraternos, apenas, embriagados”. Por outro lado, vejo-te adormecida. Vejo tuas ruas tristes, teus mocambos empoeirados, olvidados lá nos morros, conduzidos pela mão madrasta do abandono.

Os que vêm de fora não te conhecem, velha Camela. Não sabem disso. Não conhecem esse mistério.

Acredito, velha Camela, que um dia há de chover uma chuva bem forte e, a conta dessa chuva, haverá água suficiente para lavar tua face, para lavar a sombrosidade de teu povo, pois teu povo está cada vez mais sombrio, mais soturno, mais exasperado. O suor de seu rosto, os ganhos de seu trabalho são malbaratados pela agudez das garras dos oportunistas.

Que tu acordes, velha Camela, sob a mística equidade dessa chuva, tão equitativamente envolvente que trará em seus pingos grossos e duradouros recordações do passado e repostas ao presente. Talvez ela não traga todas as recordações nem todas as respostas, mas será com certeza o reflexo vultoso da autenticidade que verei transparecendo na brumosidade da água.

P. S.: Camela é distrito de Ipojuca (cidade localizada na área metropolitana de Recife/PE).

(Crônica publicada na Folha de Pernambuco, 28/07/2014, Opinião, p.10)

domingo, 13 de julho de 2014

A derrota da seleção do Brasil para a da Alemanha

A derrota da seleção do Brasil por 7x1 para a da Alemanha serviu para mostrar que autoconfiança demais, às vezes, pode ser algo negativo (arrogância). O Brasil era considerado o país do futebol e, desse modo, o favorito a campeão mundial. Porém essa derrota acachapante serviu para revisar esse conceito e, também, para separar o Brasil do futebol do Brasil real. Este, sim, precisa ser discutido. Mas, por causa do futebol, a atenção a ele era desviada.

(Roberto de Queiroz, Diario de Pernambuco, 10/07/2014, p. A7)

sábado, 12 de julho de 2014

Professor “faz-tudo”

Quanto ao despreparo dos professores brasileiros, apresentado na 2ª edição da Pesquisa Internacional sobre Ensino e Aprendizagem (Talis), realizada pela OCDE e coordenada no Brasil pelo (Inep), a pesquisa confirmou o óbvio. É claro que aproximadamente metade deles não se sente preparada para o trabalho em sala de aula. Essa parcela contempla principalmente os professores da primeira etapa do ensino fundamental, os quais são obrigados a dar aulas de sete ou mais disciplinas. Cada membro desse grupo recebe a alcunha de professor polivalente (“faz-tudo”). O fato é que não sabe tudo, nem dispõe de tempo para fazer tudo como mando o figurino. Minha sugestão é que, a partir do 1º ano do ensino fundamental, cada professor lecione apenas uma disciplina específica, conforme sua área de atuação.

(Roberto de Queiroz, Folha de Pernambuco, 10/07/2014, p.7)

domingo, 6 de julho de 2014

Alpes italianos

Nos Alpes italianos, existia um vilarejo, onde as pessoas se dedicavam ao cultivo de uvas para a produção de vinho.

Uma vez por ano, ocorria uma festa para comemorar o sucesso da colheita. A tradição exigia que, nessa festa, cada morador do vilarejo levasse uma garrafa do seu melhor vinho, para colocar dentro de um barril grande que ficava na praça central.

Ocorreu, entretanto, que um dos moradores pensou: “Por que devo levar uma garrafa do meu melhor vinho? Levarei uma garrafa cheia de água, pois, no meio de tanto vinho, o meu não fará falta.” Assim pensou e assim fez.

No auge dos acontecimentos, como era de costume, todos se reuniram na praça, cada qual com sua caneca, para pegar uma porção daquele vinho, cuja fama se estendia além das fronteiras do país. Porém, ao se abrir a torneira do barril, um silêncio tomou conta da multidão: daquele barril saiu apenas água.

Como isso aconteceu? O fato é que todos pensaram como aquele morador: “A ausência da minha parte não fará falta.”

Nós somos muitas vezes induzidos a pensar: “Tantas pessoas existem nesse mudo que, se eu não fizer a minha parte, isso não terá importância.”

(AUTOR DESCONHECIDO)

terça-feira, 1 de julho de 2014

Os professores que mais trabalham

Roberto de Queiroz

Pesquisa realizada em 34 países, entre 106 mil profissionais de educação, revela que os professores brasileiros são os que mais trabalham, mas têm o salário mais baixo do mundo. No Brasil, esses profissionais trabalham, em média, 6 horas a mais que em outros países. Perdem 20% do tempo pedagógico com a indisciplina dos estudantes e 12% com tarefas administrativas (Jornal da Cultura, 25/06/2014).

O percentual referido às tarefas administrativas soa equivocado, basta considerar o tempo reservado ao preenchimento de diários de classe, os quais geralmente são cheios de redundâncias e exigências desnecessárias, tome-se como exemplo aqueles em que o planejamento registrado no início da cada unidade bimestral é repetido no registro diário de aulas, ou seja, faz-se a mesma coisa duas vezes. Há casos, inclusive, nos quais se exige do professor o registro de 5 notas por estudante, em cada unidade bimestral, avaliando em cada uma delas habilidades, competências, atitudes e comportamentos. Acrescente-se a isso o direito do estudante a uma recuperação paralela a cada uma dessas 5 notas e uma recuperação final.

Os professores da primeira etapa do ensino fundamental (do 1º ao 5º ano) ministram aulas de 7 disciplinas, a saber, português, matemática, história, geografia, ciências, artes e ensino religioso. Se ainda forem acrescentadas a Constituição Federal e ética, conforme sugerem alguns políticos, o total ascenderá para 9. A maior parte desses profissionais trabalha em duas escolas. Há mesmo quem acredite que eles realmente dispõem de tempo para pesquisar, analisar, planejar os conteúdos a serem ministrados em todas essas disciplinas e para realizar (entre outras) as tarefas administrativas citadas anteriormente?

(Artigo publicado no jornal Gazeta do Oeste, Mossoró/RN, 01/07/2014, Opinião, p. 2)