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sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

A inaceitável cassação do gerúndio

Nelly Carvalho*

O governador de Brasília, José Roberto Arruda, [...] oficializou em portaria, algo que muitos professores de Português já fizeram na prática: assinou o ato de demissão do gerúndio, na linguagem burocrática, lá do seu império. E pode? perguntaram alguns. E deve? perguntaram outros. 

Para começo de conversa, são outras as cassações pelas quais ansiamos, são outras as que são necessárias a uma faxina ética no país. Mas, faxina linguístico-gramatical? Nunca se ouviu falar. 

Todos sabemos que a língua é feita de consensos e já dizia Bandeira “língua certa do povo, pois é ele que faz o português gostoso do Brasil”: nunca é feita através de banimentos e cassações.

Onde ficam as vozes dos nossos compositores como Geraldo Vandré, (Caminhando e cantando as mais lindas canções, somos todos iguais braços dados ou não) Nelson Ferreira (Comecei meu carnaval sorrindo com a alma e o coração cantando), Chico Buarque (Hoje o samba saiu, procurando você) poetas como Bandeira (Estão todos deitados dormindo profundamente) prosadores como Eça de Queirós (A mesma luz perdeu o tom magoado, cobrindo Jerusalém).

E por fim um dos forjadores do português, Camões (e a memória gloriosa daqueles reis que foram dilatando a fé e o império, a Ásia e a á África devastando) imprimindo movimento a seus versos, eternizando as conquistas portuguesas.

O uso das formas conjugadas parece mais natural ao falante. As formas nominais do verbo (infinitivo, gerúndio e particípio) sempre causam dificuldades no uso, excetuando o último, o particípio, que funciona como um adjetivo.

Se o alvo da cassação fosse o infinitivo pessoal, até se podia entender a antipatia, o olhar enviesado. Pois esta é uma forma que só existe no português (chama-se idiotismo da língua) e seu uso foi disciplinado tardiamente, no século XIX. Daí a variação de emprego da forma pessoal e impessoal, considerada por alguns gramáticos como questão de estilo. 

Não é o caso do gerúndio. A forma é uma herança latina, vem desde a formação da língua e existe e é empregado nas línguas latina modernas, como o espanhol e o francês; o inglês também o adotou, seguindo o caminho do latim, língua a que tomou emprestado 60% do seu vocabulário. Criou a forma verbal com o ing final: seu emprego é muito frequente. 

Qual a justificativa desta demissão sumária? Para os professores que a rejeitam é a dificuldade e o desinteresse de ensinar que, não sendo forma conjugada, não pode constituir uma oração independente.

Para as autoridades que se arrogam o direito de cassar uma forma verbal legítima, será que seu uso exagerado no telemarketing, influenciando o burocratês?

A desgastada frase Vou estar transferindo sua ligação, pode facilmente ser transformada em Vou transferir. E é mais didático e simples corrigir que proibir. Ninguém, ao assumir um mandato político, recebe delegação dos eleitores, para interferir nos usos da linguagem. Nem o ditador Mussolini conseguiu: proibiu o uso do pronome lei em italiano, mas ele permanece até hoje em uso.

Será que Chávez vai testar seu poder com alguma proibição do tipo?

Se o português é o espanhol sem ossos, como diz Unamuno, pela frequência de vogais, o português brasileiro é o português com azúcar, segundo a linguista galega, Pilar Vasquez Cuesta. A forma do gerúndio ajuda a torná-la mais doce e mais musical, evitando a aspereza do excesso de quês, nas orações subordinadas. 

*Nelly Carvalho é professora da PG de letras da UFPE e conselheira do CEE/PE.
 

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Mutirão da biblioteca

Carminha Bandeira*
Há aproximadamente duas semanas teve início o mutirão de construção da Biblioteca Comunitária Caranguejo Tabaiares (BCCT). Essa biblioteca já tem mais de cinco anos e surgiu da iniciativa de um grupo de moradores da comunidade Caranguejo Tabaiares, que fica na Ilha do Retiro, próxima ao SEBRAE, ao Sport Club do Recife e à Universidade de Pernambuco.
O envolvimento dos jovens da comunidade com o projeto da biblioteca é o ponto alto de sua sustentabilidade, mas eles também contam com o apoio de outras instâncias locais, como o Grupo dos Idosos (coordenador por Cleonice, conhecida por Nice) com quem mantém uma firme parceria a Associação de Moradores e o Centro Público de Economia Popular e Solidária “Maria Luzinete Costa”.
O forte senso de organização, solidariedade e espírito coletivo de seu coordenador Reginaldo Pereira é responsável pela mobilização de várias entidades que colaboram com a BCCT. Além das entidades citadas acima, situadas no seu entorno, a biblioteca conta ainda com a contribuição do ETAPAS, SEBRAE, FCAP, da FAFIRE, da Fundação de Cultura Cidade do Recife, do Programa Manuel Bandeira, do Programa Pernambuco Lendo, Companhia Criativa e outras. E com a solidariedade de uma Rede de Amigos, cujos integrantes ajudam com serviços e às vezes com pequenas contribuições financeiras.
Desde 2007 a BCCT integra a Rede de Bibliotecas Comunitárias do Recife (Releituras) que tem apoio financeiro e assessoria pedagógica do Instituto C&A (Programa Prazer em Ler)
A biblioteca funciona nos três turnos e atende diariamente aproximadamente 50 crianças. Além de Reginaldo, mais oito jovens atuam na biblioteca desempenhando as tarefas de mediação de leitura, auxiliar administrativo e atualização do blog. São Ana Paula, Jadilson, Janaina, Jully, Leninha, Mayara, Rayane, e Rodolfo.
Uma das ações importantes realizadas pela biblioteca é o atendimento às crianças da Escola Municipal Santa Edwiges, que fica na circunvizinhança, através do Programa Mais Educação (MEC). Existe um convênio formal entre MEC/Escola e a biblioteca, firmado através de acordo que estabelece o atendimento a um número determinado de crianças que não desenvolveram adequadamente as competências básicas de leitura e escrita, conforme os sistemas de avaliação nacional, estadual e municipal.
As crianças são atendidas no contra turno escolar, para participar de leitura de textos literários, ouvir histórias e escrever, buscando superar as lacunas relativas ao processo de alfabetização, muito comuns em ambientes cujas famílias ainda não se apropriaram da cultura letrada.
Somando os recursos oriundos desse convênio, com os do projeto do Instituto C&A, com algumas bolsas disponibilizadas pelo Programa Manuel Bandeira de Formação de Leitores, os jovens transformam o total numa espécie de bolsa auxilio BCCT e fazem uma redistribuição per capita que chega a aproximadamente a 50% do salário mínimo. Isso não é regular e em alguns meses, especialmente em janeiro e julho, por causa das férias, eles não contam com os recursos do Programa Mais Educação, o que provoca uma míngua na bolsa, que prejudica e às vezes impossibilita esse compartilhamento.
Curiosamente nesses dois meses, os jovens realizam uma atividade programática da maior importância – a Semana do Conto de Histórias – que na verdade é uma quinzena e tem como objetivo oferecer um programa intenso de leitura e linguagens, a aproximadamente 150 crianças diariamente (nos três turnos) como uma alternativa de ocupação sadia nas férias. Além do envolvimento direto dos 09 jovens, eles mobilizam o dobro disso de voluntários da comunidade que se envolvem com a atividade, além de contar com a participação também voluntária de poetas, contadores de histórias, escritores, músicos, cordelistas, entre outros.
A precariedade do espaço onde atualmente funciona a BCCT fez com que esses jovens da BCCT, com apoio de Nice, do Clube de Idosos, partissem para a construção de uma nova sede que deverá abrigar as duas instituições. Ou seja, a coordenação do Clube de Idosos propôs derrubar um barraco onde funcionava a sua sede (o que já foi realizado) e dar início à construção de um novo espaço, mais amplo e com melhor estrutura. No que se refere à assessoria técnica da construção, estão contando com a ajuda de engenheiros e arquitetos ligados à UPE.
A nova construção terá um piso térreo, a ser destinado ao Clube dos Idosos; e o primeiro piso, onde funcionará a BCCT. Isso porque a casa onde atualmente funciona a biblioteca se tornou muito pequena para abrigar mais de cinco mil livros que hoje constitui o acervo da biblioteca. Não existe mais espaço para estantes e para a recepção de novos livros. Além disso, a casa não oferece condições adequadas de atendimento aos usuários, que no momento, são majoritariamente crianças e adolescentes. E o aluguel representa um custo adicional, para quem sobrevive com recursos tão minguados.
Todos estão convidados a participarem do mutirão de construção da nova sede da BCCT/Grupo dos Idosos, contribuindo com serviços, materiais de construção e doação financeira. Quem quiser entrar nessa ciranda pode fazer contato com a BCCT nos telefones (81) 8785-9536 ou (81) 3077-2535. Ou acessar os blogs
Além disse pode participar do Fórum em Defesa do Livro, da leitura e das bibliotecas, para ampliar o debate sobre o papel fundamental das bibliotecas numa política publica de leitura. O fórum conta com a representação de várias instâncias governamentais e da sociedade civil, mas é muito bem vinda a participação dos gestores, conselheiros de educação e cultura e dos representantes da Câmara Municipal e à Assembléia Legislativa.
Um dos entraves enfrentados no momento neste fórum é saber como avançar na execução de um projeto de lei que já foi votado e sancionado há praticamente dois anos e não se sabe o que está impedindo a operacionalidade. A lei contempla ações em parceria entre estado e sociedade civil enfatizando o aprendizado de uma gestão compartilhada e democrática, na perspectiva das redes.
Diante de um trabalho tão importante, conduzido por jovens que sobrevivem no limite da linha de pobreza e abrem, com esforços próprios, caminhos para a inserção no mundo da leitura, escrita e informação, perguntamos por que é tão difícil para os gestores estabelecerem políticas que:
· Valorizem as bibliotecas como ambientes de acesso à informação e disseminação da cultura letrada?
· Apóiem as bibliotecas comunitárias, criando um fundo voltado para a renovação permanente de acervo e melhoria das instalações, envolvendo o desenvolvimento de concepção de ambientes adequados?
· Criem uma modalidade de bolsa, para jovens agentes de leitura das comunidades?
· Fortaleçam a Universidade apoiando cursos de formação de mediadores de leitura e orientações técnicas à catalogação e informatização de acervos e incentivo ao sistema de empréstimos e circulação dos livros entre as famílias?

sábado, 14 de janeiro de 2012

Roberto de Queiroz (resumo biobibliográfico)



Roberto de Queiroz tem graduação em Letras pela Faculdade de Formação de Professores da Mata Sul (FAMASUL-PE), 2003; especialização em Letras pela Universidade de Pernambuco (UPE), 2007; formação em Mediação de Leitura pelo Centro de Estudos em Educação e Linguagem (CEEL/UFPE), 2012; especialização em Gestão Escolar pela Faculdade Pitágoras de Belo Horizonte, 2012; aperfeiçoamento em Gestão Escolar pelo Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Pernambuco (IFPE), 2023; e mestrado em Tecnologias Emergentes em Educação pela MUST University, 2024.

Atuou como coordenador pedagógico de unidade escolar por mais de oito anos e como gestor adjunto de unidade escolar por mais de seis anos na rede municipal de ensino de Ipojuca. Contribuiu como leitor crítico na elaboração do Currículo Referência do Ipojuca (2020). É professor efetivo na rede municipal de ensino de Ipojuca e na rede estadual de ensino de Pernambuco.

É também membro da Academia Internacional de Escritores Brasileiros, autor de seis livros e participante de várias antologias. Tem poemas, contos, crônicas e artigos publicados em jornais e revistas. Foi laureado em certames literários realizados em Pernambuco, Goiás, Rio Grande do Sul e São Paulo.


PRODUÇÃO BIBLIOGRÁFICA

LIVROS DO AUTOR

* Meus versos livres e soltos, Recife, PE, Edição do Autor, 1997.
* A nudez de escrever, Curitiba, PR, Editora Protexto, 2011.
* O enigma do olhar, Olinda, PE, Editora Livro Rápido, 2012.
* Leitura e escrita na escola: ensino e aprendizagem, Olinda, PE, Editora Livro Rápido, 2013 [2. ed. rev. e ampliada, Rio de Janeiro, RJ, Editora Multifoco, 2016].
* Recortes do tempo, Maringá, PR, Editora Viseu, 2019.
* A educação básica e a era digital: alfabetização e letramento na cibercultura, São Paulo, SP, Editora Dialética, 2024.


PARTICIPAÇÃO EM ANTOLOGIAS

* Poetas do ano 2000, Palmares, PE, Edição de Vários Autores, 2000.
* Poesias brasileiras, São José do Rio Preto, SP, Editora Casa do Livro, 2001.
* Poemas de amor, São José do Rio Preto, SP, Editora Casa do Livro, 2002.
* Brasil literário 2002, Caxias do Sul, RS, Edição de Vários Autores, 2002.
* Poesias brasileiras v. 2, São José do Rio Preto, SP, Editora Rio-pretense, 2003.
* Poetas da Famasul, Recife, PE, Edições Bagaço, 2004.
* Colibris em voo: antologia poética nacional, Goiânia, GO, Editora Kelps, 2005.


Endereço para acessar CV integral:

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Dan Brown (biografía)

(Exeter, 1964) Escritor estadounidense, conocido especialmente como autor del best-seller El Código Da Vinci (2003). Dan Brown era uno de los tres hijos (Valery y Gregory son sus hermanos) del matrimonio formado por Richard G. Brown, un matemático ganador de varios premios científicos, y Constance, una intérprete y compositora de música religiosa.


                                                                                        Dan Brown


Tras estudiar Literatura en la Universidad de Amherst y en la Academia Phillips de Exeter (donde su padre era profesor), decidió seguir el camino de su madre y comenzó una carrera musical. Se dedicó a crear efectos sonoros con teclados electrónicos y grabó un primer disco para niños que imitaba los sonidos de los animales de la selva, y luego otro, más elaborado, destinado a los adultos.

Brown se trasladó a Hollywood con el objeto de intentar convertirse en un músico profesional del cine y llegó a inscribirse en la Academia Nacional de Compositores de Los Ángeles, donde conoció a la que sería su esposa (12 años mayor que él), la pintora e historiadora del arte Blythe Newlon, quien se ocupó en principio de la promoción de un nuevo disco de Brown compuesto de canciones de amor.

Como la fortuna musical no le sonrió en exceso, optó por regresar a New Hampshire para trabajar como profesor de Literatura inglesa, hasta que en 1996 decidió dedicarse a la escritura. Así nacieron sus novelas La fortaleza digital (1996), Ángeles y demonios (2000) y La conspiración (2001), en las que resuenan los ecos de los debates entre ciencia y religión que oía de muchacho en su hogar, y la afición por los códigos secretos que le inculcó su padre.

La fortaleza digital es una novela de intriga en la que la tecnología desempeña un papel fundamental. Brown plantea la cuestión de hasta qué punto la seguridad nacional y la amenaza del terrorismo justifican las intromisiones en la privacidad del individuo. La protagonista es una criptógrafa empleada en la Agencia de Seguridad Nacional que debe viajar a Sevilla para seguir la pista de un código indescifrable. Brown, que en 1995 había estudiado historia del arte en Sevilla, describe esta ciudad española con sordidez y como un lugar anclado en el pasado. Ángeles y demonios es también una novela de misterio que presenta un conflicto entre ciencia y religión; en ella, el profesor Langdon y la científica Vittoria Vetra se enfrentan a una peligrosa secta, los Illuminati. La conspiración se centra en el descubrimiento de un misterioso objeto en el círculo polar ártico.

Las tres novelas fueron reeditadas numerosas veces tras el éxito fulminante de El Código Da Vinci, libro que no sólo le dio una inmensa popularidad, sino que lo obligó también a afrontar algunos juicios por plagio. Su trama, que combina temas esotéricos, religiosos y artísticos con elementos clásicos de las novelas de misterio, atrajo a millones de lectores.

La novela fue llevada al cine en 2006 por el director Ron Howard, con el actor Tom Hanks en el papel del personaje protagonista: Robert Langdon, profesor de simbología y de arte religioso en Harvard. El Código Da Vinci impulsó además un curioso fenómeno: la publicación de numerosos libros de autores que desafiaban (o que habían desafiado a lo largo de la historia) la doctrina oficial de la Iglesia sobre Jesucristo, María y otras figuras del cristianismo.

Se ha dicho que los libros de Dan Brown tienen en común su impericia literaria y una multitud de errores históricos, geográficos, religiosos y artísticos. Pero, sobre todo, han conquistado millones de lectores más allá de la publicidad, atrapados por la trama de la "gran conspiración". A mediados de 2008 El Código Da Vinci, cuya primera edición en Estados Unidos databa de 2003, había sido traducida a más de 40 idiomas y superaba la cifra de 70 millones de ejemplares vendidos en todo el mundo. Su autor había obtenido desde la publicación unos ingresos anuales de alrededor de 80 millones de dólares, lo que le hizo figurar, de la noche a la mañana, entre los escritores norteamericanos más ricos y famosos, aunque quizás nunca figurará entre los que han realizado un aporte significativo a la literatura.

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Memórias da minha iniciação à leitura

Carminha Bandeira*
Introdução
Mais do que um relato autobiográfico, o meu objetivo ao escrever essas memórias procura responder a um antigo desafio lançado pela professora Magda Soares às professoras (es) e pedagogas (os), de fazerem esse exercício de reconstituição dos seus próprios processos de aprendizado da leitura, procurando reorientar suas metodologias, a partir da reflexão sobre a própria experiência de aprender a ler.  Buscando, inclusive, redimensionar o papel das antigas alfabetizadoras e alfabetizadores, que ensinavam a ler, nas cidades pequenas e nas áreas rurais, quando muitas vezes, não haviam cursado além da quarta série primária.
Com isso, quem sabe poderíamos começar a escrever, a muitas mãos, uma Pedagogia da aprendizagem da leitura com a cara da diversidade desses Brasis, montando o nosso quebra-cabeça a partir de como se ensina a ler e escrever nos grotões, nos sertões, nas periferias das grandes cidades. E quem sabe, (não custa sonhar...) começamos a resgatar coletivamente a história do ensino da leitura no Brasil?  E dessa forma, traremos novas luzes ao velho e acirrado debate dos acadêmicos, sobre o antagonismo estéril (pelo menos para mim) entre os métodos fônicos, analíticos, sintéticos, como se esse fosse o x da questão do analfabetismo e dos excluídos da sociedade letrada?
Ao começar a realizar o meu exercício - cuja primeira versão  compartilho aqui nesse espaço de poetas e leitores diversos -,  descubro o papel fundamental do meu pai nesse processo. Foi ele que me ensinou a ler, bem antes de ir para a escola, a partir de umas combinações felizes: a) sua profissão como radiotelegrafista, que propiciou a convivência na minha primeira infância com um ambiente naturalmente impregnado de impressos, códigos lingüísticos e das tecnologias da comunicação; b) a abertura, impregnada de afeto, para mediar o meu contato com esses equipamentos, inclusive a brincadeira com o teclado da máquina, transformado em minha primeira cartilha de ABC; c) o fato de ser um leitor natural, de jornais, revistas, livros de literatura; d) o gostar de contar histórias e ler sempre os clássicos da literatura infantil para mim; e) e finalmente, realizar a prática da leitura e da escrita de forma natural, incorporada à vida,  servindo de modelo de quem lia e escrevia por dever do ofício, porém,  com muito gosto e satisfação.
Um detalhe muito importante antes de concluir esta introdução: a formação escolar do meu pai não foi além da quarta série primária. Depois disso, ele fez mais dois anos de formação técnica em radio telegrafia. E com isso ele fez a minha iniciação à leitura, que se caracteriza, como vai se evidenciando, como uma relação marcadamente  edipiana.
O teclado e os jornais: duas lembranças bem marcantes
Uma das recordações mais remotas da minha iniciação à leitura refere-se à  imagem do meu pai , sentado diante da máquina de escrever, rodeado de aparelhos que emitiam luzes e ruídos, operando o pequeno telégrafo com que se comunicava com os aviões, recebendo informações dos vôos, através do código Morse.
O meu pai era radiotelegrafista e quando se casou em 1951, foi trabalhar numa estação do Campo de Aviação (era assim que se chamavam antigamente os aeroportos do interior) na cidade de Bom Jesus da Lapa, às margens do Rio São Francisco.
Ele era de Juazeiro e a minha mãe, de Santa Filomena, sertão de Pernambuco, de onde acabou migrando para Petrolina. Eu nasci em Petrolina, mas por ter vivido a minha primeira infância em Bom Jesus da Lapa – trafegando, sempre por via aérea, por sobre aquele trecho específico do rio, que liga Pernambuco à Bahia -, me sinto meio baiana, meio pernambucana, barranqueira ou, porque não dizer: sanfranciscana?
É este o contexto de onde parto para buscar os primeiros vestígios de lembranças do meu processo de iniciação à leitura, talvez por volta dos três anos de idade.  Vejo-me sentada no colo de pai, diante da máquina de escrever, operando o pequeno telégrafo, ao mesmo tempo receptando e emitindo as mensagens em código Morse.
Nos intervalos, meu pai me deixava brincar com o teclado, que foi, na verdade, a minha primeira carta do ABC. Ali aprendi a reconhecer as letras: as vogais, as consoantes, o C: primeira letra do meu nome e dos demais irmãos e irmãs, em homenagem à minha mãe Corina.
Além da máquina de escrever, o telégrafo, o telefone antigo e outras geringonças próprias do sistema de comunicação radiotelegráfica (que equipavam a estação onde o meu pai trabalhava) por ali também circulavam diariamente alguns jornais distribuídos nos aviões: -  Diário de Minas, Diário de Pernambuco, Jornal do Brasil – cujos títulos aprendi rapidamente a distinguir. Posso arriscar, então, que, de forma brincante, pouco consciente e absolutamente natural, fui  descobrindo e processando o funcionamento do sistema alfabético.  Construindo o meu próprio percurso de aprendizado da leitura, me espelhando na figura do meu pai.
 Foram muitas as ocasiões em que almoçávamos, eu e meus irmãos, na estação de rádio, pois dia sim, dia não, meu pai dava plantão à hora do almoço, quando os aviões costumavam chegar, no intervalo das 12 às 15 horas. O almoço ia de casa, na marmita, levada por Manuelão, pessoa muito querida, auxiliar de serviços gerias dos aeroviários. Minha mãe reforçava a quantidade quando a gente resolvia também comer por lá. Meu pai espalhava os jornais num canto da sala, como se fossem esteiras e a gente se sentava sobre as notícias, enquanto ele ia servindo os nossos pratos.
Um belo dia, eu devia ter aproximadamente cinco anos, cheguei perto de Zezinho Emerenciano, um grande amigo da família que estava em nossa casa lendo o jornal e li com convicção: DIARIO DE MINAS.
Zezinho, surpreendido, me olhou e perguntou:
- E Carminha já sabe ler?
Ele duvidou quando eu falei que sim, achou que eu havia memorizado o título e começou a apontar palavras aleatórias pedindo para que eu lesse. Eu lia todas, sem dificuldade, até que ele pediu que, em vez de palavras soltas, eu lesse um parágrafo. E eu fui lendo, em andamento mais lento, avançando, porém, aos poucos, enquanto adquiria maior segurança. Zezinho acompanhava e sorria, com a maior perplexidade.
As histórias e a literatura infantil
Tanto o meu pai, como a minha mãe, costumavam contar histórias para mim: João e Maria, Cinderela, Branca de Neve e os Sete Anões, Pinochio, As viagens de Gulliver...
Eu adorava, mas percebo hoje uma distinção entre a intenção do contar para os dois: o meu pai tinha consciência que estava me ensinando a ler e tinha clareza absoluta do papel da literatura nesse processo. Ele ia além do contar por contar e começou a comprar e ler os livros das mesmas histórias para mim e meus irmãos. Lendo nos livros as mesmas histórias que eu já conhecia de ouvir contar, ele fazia com que eu naturalmente fosse percebendo a diferença entre as narrativas oral e escrita. E sempre pedia que eu recontasse, me ajudando a compreender e a relatar a história.
 Também extraia as palavras chaves para eu memorizar. Lembro-me perfeitamente dele fazendo isso com os nomes dos sete anões. Escrevia os nomes em fichas - MESTRE, ATCHIM, DENGOSO, ZANGADO, DUNGA, SONECA, FELIZ - e ia me mostrando, me ajudando a reconhecer e distinguir cada um. Depois pedia que eu identificasse os nomes nas páginas do livro.
A caligrafia e a caneta-tinteiro
O nome José Bandeira inscrito na tampa de ouro da caneta-tinteiro de marca Compactor estava, logicamente, entre as primeiras palavras que eu aprendi a memorizar. Essa caneta ele ganhou de presente do avô e a tampa tinha duas marcas de uma mordida que dei, por volta dos dois anos de idade.
Lembro-me que com a mesma concentração e naturalidade com que pai operava o telégrafo e a máquina de escrever, manejava com destreza a caneta-tinteiro, seja para escrever cartas, exercitar sem compromisso a arte de versejar, assinar os nossos boletins escolares, preencher talões de cheques, deixando no papel as marcas de uma caligrafia impecável.
 Ao que me parece, a caligrafia era ensinada como disciplina pelos antigos alfabetizadores – ter um traço de letra firme e legível era um objetivo importante do ensino da leitura-escrita. Será que isso ainda é válido para hoje? As teclas devem abolir o exercício da escrita caligráfica?
Uma capa de chuva inusitada
Através da memória da minha mãe posso imageticamente representar um episódio acontecido quando eu ainda era um bebê que  ilustra esse universo natural de comunicação e leitura,  que constituiu o meu habitat natural na infância e ajudou a me construir como leitora.
 Ela conta que foi ao encontro do meu pai me carregando no colo, num determinado dia em que o  avião atrasou e ele precisou ficar até o final da tarde no campo. Quando pai finalmente se liberou dos afazeres, começou a cair uma garoa e os dois estavam sem sombrinha ou guarda-chuva.  Para me proteger, eles simplesmente, me envolveram na capa da máquina de escrever e assim, caminhamos de volta para casa. É claro que não me recordo disso, mas posso imaginar e visualizar as imagens desse episódio relatado pela minha mãe, como cenas cinematográficas, incorporando-se (e ampliando) às minhas próprias memórias.
Imagino ainda que todos os elementos que podem orientar as considerações finais estão apontados na introdução, prefiro deixar as conclusões por conta dos leitores.
Recife, 07 de julho de 2011.

sábado, 3 de setembro de 2011

A atualidade de Castro Alves

Arnaldo Niskier*

Se a arte literária é sempre um desafio público, ser poeta é desafiar a opinião e a razão muitas vezes do próprio poeta. Em Castro Alves, os poemas mais fortes, muitas vezes herméticos, transmitem beleza e mistério, deixam no espírito do leitor estudioso a dúvida em relação a sua profundidade, a sua causa primeira e a sua amplitude.
 
O que, realmente, tocava a alma do poeta, por exemplo neste trecho de uma de suas poesias mais inspiradas, intitulada No meeting du comité du pain?
 
''Não deixemos, Hebreus, que a destra dos tiranos/ Manche a arca ideal de nossas ilusões./ A herança do suor, vertido há dois mil anos,/ Há de chegar intacta às novas gerações,/ Nós que somos a raça eleita do futuro,/ O filho que Deus amou, qual Benjamin...''
 
Em cada um desses versos, à exceção do quarto, Castro Alves relembra a história judaica. Em Os escravos, o poema Século compara a mocidade a ''Moisés no Sinai''.
 
O que reivindicava Castro Alves em seus poemas? Terá sido, ele também, um assumido cristão novo? Que interpretação final devemos dar, nos dias de hoje, a Vozes d'África? Logo na primeira estrofe, o poeta diz:
 
''Há dois mil anos te mandei meu grito.''

Que grito terá sido? Na geografia abstrata do lirismo, por onde terão voado as asas do Condor?
 
Resposta precisa não existe. Ditá-la, seria transformar a arte do verso numa ciência exata, com o que definitivamente não concordamos. Antônio Frederico de Castro Alves nasceu na fazenda das Cabaceiras, no interior da Bahia, no dia 14 de março de 1847, e ali viveu até os 7 anos. Junto aos pais e a sua ama-de-leite, Leopoldina, dela ouviu as primeiras histórias sobre os horrores da escravidão. Segundo um de seus biógrafos, Waldemar Matos, este lugar deixou sulcos inapagáveis na alma do poeta, que viria a ser o cantor dos escravos.

Em 1854 mudou-se para a cidade de São Félix, às margens do Rio Paraguaçu. Em Cachoeira, cidade vizinha, Castro Alves frequentou sua primeira escola. Pouco tempo depois, a família transferiu-se para Salvador. Quando o menino completou 9 anos, a família já numerosa (com os meninos Antônio, José Antônio e Guilherme e as irmãs Elisa e Adelaide) mudou-se para uma casa maior. Castro Alves foi matriculado no Colégio Sebrão, no alto das ladeiras da Montanha e da Conceição, onde atualmente fica a Praça Castro Alves. Após o nascimento de Amélia, a última filha do casal, a família transferiu-se para o Solar da Boa Vista, em Brotas. A casa da Boa Vista, mais do que qualquer outra, ficou ligada ao poeta, transparecendo em grande parte da sua obra.
 
Com a morte de D. Célia, mãe de Castro Alves, em 1859, a família passou a morar no centro da cidade, no Largo do Pelourinho. Em 1862, Dr. Antônio casou-se pela segunda vez com a viúva Maria Ramos Guimarães, mudando-se para o Solar do Sodré, onde hoje é o Colégio Ipiranga. Em 1861, ainda no ginásio, o poeta declamou sua primeira poesia, na festa de comemoração da liberdade da terra baiana, graças aos heróis de Pirajá:

''Se o índio, o negro, o africano,/ E mesmo o perito hispano/ tem sofrido servidão;/ Ah! Não pode ser escravo/ Quem nasceu no solo bravo/ Da brasileira região!''

Castro Alves e o irmão José Antônio seguiram para Recife, em 1862, onde fizeram os estudos preparatórios para ingressar na Faculdade de Direito. O poeta foi reprovado na primeira tentativa, mas teve a alegria de ver publicados alguns de seus poemas no Jornal do Recife.
 
Fez carreira poética até chegar à glória máxima de ser exaltado nos braços do povo, quando sua poesia social tinha a finalidade ostensiva de propaganda política e mesmo revolucionária. Por isso mesmo, o bardo era conhecido como ''a tuba sonora''.
 
Dois fatos importantes marcaram o nome de Castro Alves na campanha abolicionista no Brasil: de um lado, a Lei Euzébio de Queirós, de 1850, reprimindo o tráfico africano e, do outro, a Lei do Ventre Livre, sancionada em 28 de setembro de 1871, dois meses depois da morte do poeta, o que ocorreu a 6 de julho daquele ano.

Que mistério faz perdurar a genialidade do poeta dos escravos, decorridos 132 anos da sua morte? Seus poemas continuam a ser admirados, pela força da sua essência.

*Arnaldo Niskier é secretário de Cultura do Estado do Rio de Janeiro e membro da Academia Brasileira de Letras.

(Artigo publicado no Jornal do Brasil, 19/05/2004, p. B2)

terça-feira, 30 de agosto de 2011

Tempo de definir


Nelson Hoffmann*

Em minhas leituras bíblicas, sempre tive especial predileção pelo Eclesiastes, do Antigo Testamento. Gosto daquela denúncia da total vaidade de tudo, do alerta para a precariedade do presente e da conclusão para a plena entrega em Deus. Vivemos em ilusão, pura ilusão! Tudo é ilusão. O tempo é transitório, precário, há um tempo para tudo, e somos fracos, quebradiços, nada controlamos, pois que há um tempo de nascer, e tempo de morrer; tempo de…

Morrer é definir-se para sempre.
        
Atrai-me a condução para a total entrega. A capitulação contradiz-se em libertação. Testemunhei a rendição em mim quando sofri o infarto. Não quis aceitar, teimei, reagi. Encurralado, fui colocado diante dos fatos: ou… ou. Em ambos, o fim ou quase. A chance mínima, em mãos de outros. Entreguei-me: fizessem de mim o que quisessem.

E fui feliz.

Assim mesmo descaio sempre. Gasto-me em lutas, lanço-me em empreitadas mil. Esfalfo-me por riqueza, glória, poder. Caço vantagem, lucro, bem-estar. Tenho no dinheiro, na vaidade, no prazer o meu norte. Quero abarcar o mundo com meus feitos. E esqueço que tudo tem seu tempo, há um momento oportuno para cada empreendimento debaixo do céu.

Por vezes acordo. Acordo e conheço que me embaralho, perco, que desando. Que passo, passei.

A vida?!

Como nos versos de Mário de Sá-Carneiro:

Passei pela minha vida

Um astro doido a sonhar.
Na ânsia de ultrapassar,
Nem dei pela minha vida…

Disperso-me. Embrulho-me em sonhos, agito-me e não saio do lugar. Quando paro pra pensar, sinto que recuo. Quando recuo, encontro o vácuo. O que fiz do que fui?
        
Eu sou o que fui.
        
E o que serei? O que farei do que ainda não sou? Serei o quê?

Serei?!

Um dia saí de casa, ao trabalho, e meia hora depois morria.

Ainda tenho meia hora?

Serei o que sou. Elaboro-me. A cada minuto, a cada segundo, a cada fração de. Posso não chegar à próxima fração. A vida é frágil, eu sou débil e, além disso, o homem desconhece a sua hora.
        
Entrego-me. Não posso mais adiar, o tempo foge-me. Preciso recolher-me, concentrar. É Natal, é luz do caminho, é estrela da chegada. Contabilizo seis décadas e meia de vagueação e troco a folhinha de mais um Novo Ano. O presente já é passado e o futuro é quase presente. Tudo caminha para o fecho. A história conclui-se, é tempo de definir.

A definição final está próxima.


*Nelson Hoffmann é escritor e crítico literário gaúcho.