Roberto de Queiroz
A construção de uma sociedade desenvolvida, plural e justa depende, em grande medida, do trabalho do professor. Antes que um médico trate pacientes, um engenheiro projete pontes, um jornalista apure fatos ou um ator interprete papéis, há uma trajetória de aprendizagem que passa pela sala de aula. O professor participa, portanto, da formação dos profissionais que sustentam diferentes setores da sociedade. Seu trabalho não se limita à transmissão de conteúdos. Contribui diretamente para a construção das bases do conhecimento que permitem aos estudantes compreender o mundo e atuar nele.
A atuação do professor ultrapassa os limites do currículo. É na escola que muitos estudantes aprendem a conviver com as diferenças, respeitar regras coletivas, argumentar e reconhecer direitos e deveres. Essas experiências são fundamentais para o exercício da cidadania e para a participação responsável na vida pública. Ao promover o diálogo e estimular o pensamento crítico, o professor contribui para a formação de pessoas capazes de tomar decisões conscientes e participar da construção de uma sociedade democrática.
Apesar dessa responsabilidade, o magistério ainda enfrenta problemas que comprometem o exercício da profissão. Salários incompatíveis com a importância do trabalho, infraestrutura inadequada e falta de perspectivas de carreira revelam a distância entre o discurso sobre a educação e as condições reais oferecidas a quem atua nas escolas. Esses problemas não afetam apenas o professor, mas também a qualidade do ensino, pois comprometem a permanência de profissionais na carreira e limitam as oportunidades de aprendizagem dos estudantes. Ignorar tais questões significa tolher o desenvolvimento social e econômico do país.
Além das dificuldades estruturais e da desvalorização profissional, o professor enfrenta pressões cotidianas que comprometem seu bem-estar e sua autonomia pedagógica. No cotidiano escolar, surgem novas exigências relacionadas à qualidade do ensino, à inovação, aos resultados e ao desenvolvimento de competências. Em resposta a essas cobranças, multiplicam-se formulários, formações, programas e projetos, frequentemente concebidos e implementados de cima para baixo. Muitas dessas iniciativas, por não considerarem a realidade das escolas, acabam ampliando as demandas burocráticas e reduzindo o tempo disponível para o planejamento e o acompanhamento da aprendizagem. Nesse contexto, o excesso de discursos parece prevalecer sobre a escuta ativa, como se a melhoria da educação dependesse mais de novas orientações e procedimentos do que da participação efetiva de quem vive a realidade escolar.
A essas pressões somam-se situações de violência que tornam ainda mais complexo o exercício da docência. A pesquisa internacional TALIS 2024, realizada pela OCDE, ouviu cerca de 280 mil professores e diretores escolares em 55 países e territórios. Segundo os dados apresentados, o Brasil ocupa a primeira posição entre os países participantes no que se refere à intimidação e ao abuso verbal praticados por estudantes, apontados pelos professores como fontes de estresse no ambiente escolar. Paralelamente, os monitoramentos do Observatório Nacional da Violência Contra Educadores (ONVE-UFF) apontam outra forma preocupante de violência nas escolas brasileiras: a censura e a perseguição ideológica. Segundo dados dessa rede, 61% dos professores relataram ter sofrido algum tipo de assédio ou restrição à liberdade de ensinar conteúdos previstos nas diretrizes curriculares.
Valorizar o professor exige mais do que homenagens em datas comemorativas. É necessário assegurar remuneração digna, formação continuada e condições adequadas de trabalho. Isso requer políticas públicas consistentes, sustentadas por investimentos, metas claras e avaliação contínua dos resultados. Essa responsabilidade deve ser compartilhada pelo poder público e pela sociedade, que precisam reconhecer a educação como prioridade permanente. Afinal, se a formação de profissionais qualificados e de cidadãos conscientes começa na escola, investir no professor é fortalecer as bases de um país mais justo, preparado e capaz de enfrentar os desafios futuros.

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