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terça-feira, 5 de maio de 2020

Texto literário: conceito, características e exemplos

Roberto de Queiroz


O que é texto literário?

O texto literário tem função predominantemente artística, mas também pode desempenhar funções sociais, culturais e críticas. Nessa forma de escrita, o autor valoriza a estética e prioriza o uso da linguagem conotativa. Para isso, ele recorre a uma série de recursos linguísticos e estilísticos que enriquecem a expressividade do texto, tornando-o complexo e afastando-o de interpretações literais.

Trata-se de uma forma de escrita aberta a múltiplos significados, permitindo interpretações distintas conforme o conhecimento prévio de cada leitor. Isso ocorre porque o autor de um texto literário não se limita à comunicação objetiva de fatos. Ele busca provocar reflexões, emoções e diferentes perspectivas no leitor.

Baseado na realidade, na ficção ou na mistura de ambas, o autor desse tipo de texto tem a liberdade de criar as próprias regras e universos, sem compromisso com a impessoalidade e a objetividade, podendo ou não priorizar a clareza das ideias. Ele pode enfatizar o significante, explorando os efeitos expressivos e semânticos das palavras.

Quanto à forma, o texto literário pode se apresentar por meio da escrita (em verso ou prosa) e também pode assumir formas híbridas, combinando escrita e ilustração, como ocorre na literatura infantil e nas histórias em quadrinhos.


Características do texto literário

1. Linguagem conotativa: prevalece a utilização da linguagem figurada.
2. Complexidade: uso articulado de recursos linguísticos e estilísticos.
3. Multissignificação: possibilidade de múltiplas interpretações.
4. Liberdade de criação: o autor pode estabelecer as próprias regras e universos.
5. Ênfase ao significante: exploração da expressividade e semântica das palavras.
6. Variação de forma: pode se apresentar em verso, prosa ou formas híbridas.


Exemplos de textos literários

Romance

Romance é um gênero textual narrativo, escrito em prosa, no qual é contada uma história imaginária ou inspirada na realidade. Distingue-se do conto pela maior extensão, complexidade e variedade das técnicas narrativas. Apresenta mais de um núcleo narrativo e vários conflitos que se desenvolvem ao longo da história principal.

Veja a seguir a passagem de um romance, retirada de uma obra de Milton Hatoum:

“Naquela época, quando Omar saiu do presídio, eu ainda o vi num fim de tarde.  Foi o nosso último encontro.

O aguaceiro era tão intenso que a cidade fechou suas portas e janelas bem antes do anoitecer.  Lembro-me de que estava ansioso naquela tarde de meio-céu. Eu acabara de dar minha primeira aula no liceu onde havia estudado e vim a pé para cá, sob a chuva, observando as valetas que dragavam o lixo, os leprosos amontoados, encolhidos debaixo dos oitizeiros.  Olhavam com assombro e tristeza a cidade que se mutilava e crescia ao mesmo tempo, afastada do porto e do rio, irreconciliável com o seu passado.”

HATOUM, Milton.  Dois Irmãos.  São Paulo:  Companhia das Letras, 2000. p. 264.

Conto
  
Conto é um gênero textual narrativo, escrito em prosa, no qual há o relato de um episódio fictício ou baseado em fatos. Diferencia-se do romance por ser mais curto, apresentar apenas um núcleo narrativo, poucas personagens e girar em torno de um único conflito.

Como exemplo, analise o excerto a seguir, retirado de um conto de Clarice Lispector:

“Ela estava com soluço. E como se não bastasse a claridade das duas horas, ela era ruiva.

Na rua vazia as pedras vibravam de calor – a cabeça da menina flamejava. Sentada nos degraus de sua casa, ela suportava. Ninguém na rua, só uma pessoa esperando inutilmente no ponto do bonde. E como se não bastasse seu olhar submisso e paciente, o soluço a interrompia de momento a momento, abalando o queixo que se apoiava conformado na mão.” 

LISPECTOR, Clarice. “Tentação”. In: ______. A legião estrangeira. São Paulo: Ática, 1977. p. 59-60.
   
Crônica

Crônica é um gênero textual que transita entre o jornalismo e a ficção. Nesse tipo de texto, geralmente predominam a narração e a descrição de eventos cotidianos, com uso frequente da linguagem coloquial e tom reflexivo ou bem-humorado.

A título de exemplo, leia este trecho da crônica iLua, de Antonio Prata, publicada no jornal Folha de S. Paulo, em 23/12/2018:

“A primeira palavra que eu falei foi lua. A primeira palavra que eu escrevi também. A primeira sugestão do Google quando você digita “how to photograph” é “how to photograph the moon” e a segunda é “how to photograph the moon with iPhone”. Curiosamente, contudo, quando você escreve “como fotografar a”, em português, a frase “como fotografar a lua” fica em segundo. Em primeiro surge “como fotografar a tela do Mac”. É, pensando bem, talvez Steve Jobs já tenha conquistado a Lua.”

Poema

Poema é um gênero textual organizado em versos. Pode ser composto por uma ou mais estrofes, apresentar forma fixa ou livre e conter rimas ou não.

Leia o exemplo abaixo, extraído de um livro do poeta Josivaldo Freire:

Vivo labor

Camponeses lavram a terra por mim.
 Lavradores e arados vigiam a retaguarda
 enquanto eu sinto uma fome sem fim
 e sacio tudo com um grão de mostarda.

Costureiras me vestem sem o saber.
Retalhos de tempo recortam o amanhã.
Tecelões pasmados tramam o fio sem ver
que no peito um fio de esperança é talismã.

Médicos enfaixam minha dor.
Meus cortes abertos gritam por ti.
Meu remédio é tua dose de candor
a suturar a ferida dentro de mim.

Ouço choro triste de um jardineiro,
suas lágrimas regam a raiz e a flor.
A flor da tua pele me faz prisioneiro
em solo em que adubo sementes de amor.

FREIRE, Josivaldo. “Vivo labor”. In: ______. Voo singular: poemas que elevam. Sirinhaém, PE: Gráfica e Editora Inovação, 2018. p. 16.

sábado, 11 de abril de 2020

Figuras de som

Roberto de Queiroz

Figuras de som (ou de harmonia) são figuras de linguagem[1] associadas à logicidade do texto por meio da repetição de sons idênticos ou semelhantes.

Seguem relacionadas as principais figuras de som.

1. Aliteração – Figura de linguagem formada pela repetição de sons consonantais idênticos ou semelhantes, geralmente no início de palavras próximas em uma frase ou verso, com o intuito de gerar efeito estilístico.

Exemplo:

“Auriverde pendão de minha terra,
Que a brisa do Brasil beija e balança
(Castro Alves)

Nesse excerto, a repetição do som consonantal representado pela letra “b”, no início das palavras do segundo verso, gera aliteração.

2. Assonância Figura de linguagem constituída pela repetição de sons vocálicos em palavras próximas ou no final de versos, especialmente em sílabas tônicas, com a finalidade de acelerar o ritmo do poema.

Exemplo:

“Juro que não acreditei, eu te estranhei
Me debrucei sobre teu corpo e duvidei
E me arrastei e te arranhei
E me agarrei nos teus cabelos”
(Chico Buarque)

No trecho em análise, a assonância é gerada por maio da repetição do encontro vocálico “ei” no interior e no final dos versos.

3. Paronomásia – Figura de linguagem que reside na disposição de palavras parônimas próximas umas das outras. Esse fenômeno é conhecido popularmente como trocadilho.

Exemplo:

“Conhecer as manhas e as manhãs
O sabor das massas e das maçãs
(Almir Sater e Renato Teixeira)

Nesses versos, ocorre paronomásia entre os pares de palavras “manhas/manhãs” e “massas/maçãs”.

4. Onomatopeia – Figura de linguagem que consiste na tentativa de reproduzir sons e barulhos por meio da escrita. Normalmente é usada nas histórias em quadrinhos, mas às vezes é usada em outros gêneros textuais.

Exemplo:

“E era tudo silêncio na saleta de costura; não se ouvia mais que o plic-plic-plic-plic da agulha no pano.” (Machado de Assis)

No período acima, o uso do termo “plic-plic-plic-plic” configura onomatopeia, pois é uma tentativa de reproduzir o som emitido pela agulha ao perfurar o pano.


[1] Figuras de linguagem são recursos linguísticos que exploram a sonoridade, o significado, a estrutura e a disposição das palavras na frase.


terça-feira, 7 de abril de 2020

Português não é para amador


Um poeta escreveu: “Entre ‘doidos’ e ‘doídos’, prefiro não acentuar.” Às vezes, não acentuar parece mesmo a solução. Eu, por exemplo, prefiro a “carne” ao “carnê”. Assim como, obviamente, prefiro o “coco” ao “cocô”. No entanto, nem sempre a ausência do acento é favorável... Pense no “cágado”, por exemplo, o ser vivo mais afetado quando alguém pensa que o acento é mera decoração. E há outros casos, claro! Eu não me “medico”, eu vou ao “médico”. Quem “baba” não é a “babá”. Você precisa ir à “secretaria” para falar com a “secretária”. Será que a “romã” é de “Roma”? Seus “pais” vêm do mesmo “país”? A diferença na palavra é um “acento”; “assento” não tem “acento”. “Assento” é embaixo, “acento” é em cima. “Embaixo” é junto e “em cima” é separado. Seria “maio” o mês mais apropriado para colocar um “maiô”? Quem sabe mais entre a “sábia” e o “sabiá”? O que tem a “pele” do “Pelé”? O que há em comum entre o “camelo” e o “camelô”? O que será que a “fábrica” “fabrica”? E tudo que se “musica” vira “música”? Será melhor lidar com as adversidades da conjunção “mas” ou com as “más” pessoas? Será que tudo que eu “valido” se torna “válido”? E entre o “amem” e o “amém”, que tal os dois? Na “sexta” comprei uma “cesta” logo após a “sesta”. É a primeira “vez” que tu não o “vês”. Vão “tachar” de ladrão se “taxar” muito alto a “taxa” da “tacha”. “Asso” um “cervo” na panela de “aço” que será servido pelo “servo”. Vão “cassar” o direito de “caçar” de dois “pais” no meu “país”. “Por tanto” nevoeiro, “portanto”, a “cerração” impediu a “serração”. Para começar o “concerto” tiveram que fazer um “conserto”. Ao “empossar”, permitiu-se à esposa “empoçar” o palanque de lágrimas. Uma mulher “vivida” é sempre mais “vívida”, “profetiza” a “profetisa”. “Calça”, você “bota”; “bota”, você “calça”. “Oxítona” é “proparoxítona”. Na dúvida, com um pouquinho de contexto, garanto que o “público” entenda aquilo que “publico”. E paro por aqui, pois esta lista já está longa. Realmente, “português” não é para amador! Se você foi capaz de ENTENDER TUDO, parabéns! Seu “português” está muito bom!

(Desconheço a Autoria)

Excelente texto para se trabalhar acentuação gráfica, homonímia e paronímia.

terça-feira, 31 de março de 2020

E-book de Recortes do Tempo na Rakuten Kobo


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segunda-feira, 30 de março de 2020