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sábado, 12 de julho de 2014

Professor “faz-tudo”

Quanto ao despreparo dos professores brasileiros, apresentado na 2ª edição da Pesquisa Internacional sobre Ensino e Aprendizagem (Talis), realizada pela OCDE e coordenada no Brasil pelo (Inep), a pesquisa confirmou o óbvio. É claro que aproximadamente metade deles não se sente preparada para o trabalho em sala de aula. Essa parcela contempla principalmente os professores da primeira etapa do ensino fundamental, os quais são obrigados a dar aulas de sete ou mais disciplinas. Cada membro desse grupo recebe a alcunha de professor polivalente (“faz-tudo”). O fato é que não sabe tudo, nem dispõe de tempo para fazer tudo como mando o figurino. Minha sugestão é que, a partir do 1º ano do ensino fundamental, cada professor lecione apenas uma disciplina específica, conforme sua área de atuação.

(Roberto de Queiroz, Folha de Pernambuco, 10/07/2014, p.7)

domingo, 6 de julho de 2014

Alpes italianos

Nos Alpes italianos, existia um vilarejo, onde as pessoas se dedicavam ao cultivo de uvas para a produção de vinho.

Uma vez por ano, ocorria uma festa para comemorar o sucesso da colheita. A tradição exigia que, nessa festa, cada morador do vilarejo levasse uma garrafa do seu melhor vinho, para colocar dentro de um barril grande que ficava na praça central.

Ocorreu, entretanto, que um dos moradores pensou: “Por que devo levar uma garrafa do meu melhor vinho? Levarei uma garrafa cheia de água, pois, no meio de tanto vinho, o meu não fará falta.” Assim pensou e assim fez.

No auge dos acontecimentos, como era de costume, todos se reuniram na praça, cada qual com sua caneca, para pegar uma porção daquele vinho, cuja fama se estendia além das fronteiras do país. Porém, ao se abrir a torneira do barril, um silêncio tomou conta da multidão: daquele barril saiu apenas água.

Como isso aconteceu? O fato é que todos pensaram como aquele morador: “A ausência da minha parte não fará falta.”

Nós somos muitas vezes induzidos a pensar: “Tantas pessoas existem nesse mudo que, se eu não fizer a minha parte, isso não terá importância.”

(AUTOR DESCONHECIDO)

terça-feira, 1 de julho de 2014

Os professores que mais trabalham

Roberto de Queiroz

Pesquisa realizada em 34 países, entre 106 mil profissionais de educação, revela que os professores brasileiros são os que mais trabalham, mas têm o salário mais baixo do mundo. No Brasil, esses profissionais trabalham, em média, 6 horas a mais que em outros países. Perdem 20% do tempo pedagógico com a indisciplina dos estudantes e 12% com tarefas administrativas (Jornal da Cultura, 25/06/2014).

O percentual referido às tarefas administrativas soa equivocado, basta considerar o tempo reservado ao preenchimento de diários de classe, os quais geralmente são cheios de redundâncias e exigências desnecessárias, tome-se como exemplo aqueles em que o planejamento registrado no início da cada unidade bimestral é repetido no registro diário de aulas, ou seja, faz-se a mesma coisa duas vezes. Há casos, inclusive, nos quais se exige do professor o registro de 5 notas por estudante, em cada unidade bimestral, avaliando em cada uma delas habilidades, competências, atitudes e comportamentos. Acrescente-se a isso o direito do estudante a uma recuperação paralela a cada uma dessas 5 notas e uma recuperação final.

Os professores da primeira etapa do ensino fundamental (do 1º ao 5º ano) ministram aulas de 7 disciplinas, a saber, português, matemática, história, geografia, ciências, artes e ensino religioso. Se ainda forem acrescentadas a Constituição Federal e ética, conforme sugerem alguns políticos, o total ascenderá para 9. A maior parte desses profissionais trabalha em duas escolas. Há mesmo quem acredite que eles realmente dispõem de tempo para pesquisar, analisar, planejar os conteúdos a serem ministrados em todas essas disciplinas e para realizar (entre outras) as tarefas administrativas citadas anteriormente?

(Artigo publicado no jornal Gazeta do Oeste, Mossoró/RN, 01/07/2014, Opinião, p. 2)

sábado, 28 de junho de 2014

O legado da Copa


A Copa nem bem começou, mas seu legado já está claro: mostrar ao povo brasileiro que a verba que poderia ser usada na educação, na saúde, na segurança e no sistema mais amplo de mobilidade urbana foi usada para a construção de magníficos estádios de futebol (tão imponentes e suntuosos que trocaram o prosaico nome de “estádio” pelo epopeico nome de “arena”). Conclusão: se o governo tivesse interesse de construir magníficas escolas, teria construído; se tivesse interesse de construir magníficos hospitais, teria construído; se tivesse interesse de construir magníficas estradas, teria construído. O fato é que não tem. Sabe-se bem por que motivos.

(Roberto de Queiroz, Folha de Pernambuco, 28/06/2014, p. 7) 

quarta-feira, 18 de junho de 2014

O poeta

Roberto de Queiroz


Para Sigmund Freud, o poeta conhece, entre o céu e a terra, muitas coisas que o conhecimento acadêmico sequer sonha conhecer. É nosso mestre, no que tange ao conhecimento da alma, pois bebe de fontes que ainda não se tornaram acessíveis à ciência. No dizer de Admmauro Gommes, “o poeta é um fundador de mundos e está sempre dando respostas, como se alguém lhe pedisse explicação dos fatos da vida. Ele descreve o interior das coisas. Não como realmente são, mas como deviam ser. Por isso, o inventor não leva muito em conta os acontecimentos reais. Prefere criar sua própria versão, fazendo do feio bonito, do triste contente”.

Na visão de Jonson, poeta não é “aquele que escreve com métrica, mas o que finge e forma uma fábula, pois fabula e ficção são, por assim dizer, a forma e a alma de toda obra poética ou poema.” Paul Valéry, por sua vez, afirma que o poeta tenta representar ou restituir, “por meio da linguagem articulada, aquelas coisas ou aquela coisa que os gestos, as lágrimas, as carícias, os beijos, os suspiros procuram obscuramente exprimir.” Ademais, Mia Couto certifica que o poeta não é apenas o detentor de um gênero literário, e sim de uma filosofia, de um modo de saber de si próprio, dos outros e do mundo.

Resumindo, o poeta é alguém que está para além da ciência (bebe de fontes que a ciência ainda não bebeu). É um observador perspicaz (descreve o interior das coisas). É um fingidor por excelência – não um mentiroso (finge e reinventa a realidade, conforme sua própria versão, tornando-a ficção). Tenta representar, por intermédio da linguagem articulada, as coisas que o comportamento humano não consegue expressar. Está para além da literatura (transita pela filosofia, pelo próprio interior, pelo interior dos outros e revela o mundo conforme a própria observação). Não é um ser iluminado, e sim um ser supersensível, cuja sensibilidade é capaz de ir além dos cinco sentidos humanos (visão, audição, olfato, gustação e tato).

(Artigo publicado no Diario de Pernambuco, 18/06/2014, Opinião, p. B4)

quinta-feira, 1 de maio de 2014

Autores & Livros

Nelson Hoffmann e Inês Hoffmann


Roberto de Queiroz publicou livro que interessa, e muito, num mundo em que o livro perde terreno diariamente. O livro Leitura e escritura na escola: ensino e aprendizagem é uma abordagem consciente, séria e esclarecedora de quem é professor e trabalha com leitura em sala de aula. Basicamente, o livro é dividido em duas partes: objetivos e funções da leitura e o conhecimento prévio na leitura. Na primeira parte, pode-se observar [...] o “porquê”  e “para que” ler; na segunda parte, são comentados os pré-requisitos para uma boa leitura.

(Nelson Hoffmann e Inês Hoffmann. Autores & Livros. O Nheçuano, n. 21, mar./abr. 2014, p. 10)

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sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

Ainda não perdemos a esperança

Francisco Miguel de Moura
Escritor, membro da Academia Piauiense de Letras, Teresina-PI, e da IWA-Interntional Writers and Artists Association-EUA       

Diante de toda a análise procedida, lembro dos símbolos de nosso país, ainda felizmente falando o português abrasileirado. O primeiro deles o Hino Nacional, depois a bandeira. Somente no desprezo pelo saber, pela escola, pelo livro pode chegar a uma suposição de ter-se perdido o hábito de o Hino Nacional nas Escolas há muito, muito tempo. E, como sabemos que cantar infunde na criança alegria e paixão, nossos homens atuais têm um desprezo enorme por nossa história e até debocham dos antepassados, como se nada tivéssemos com ele.  Só somos brasileiros por ocasião de jogos de Copa de Mundo ou de outros torneios internacionais? O que é isto? Não há mais inspetor escolar (não há mais inspetor de nada), e eu lembro de quando uma dessas autoridades chegava às escolas: todos os alunos levantavam e batiam palmas, enquanto, de pé e em silêncio, esperavam a ordem dele para sentarem. Havia respeito. Hoje o respeito foi para o ar: virou moda os assaltos à mão armada, os danos ao patrimônio público, os assassinatos sem solução policial... Sinceramente, eis o que todos nós sentimos: a vida perdeu muito do seu valor. E é ou não este um  dos direitos fundamentais do homem? Por sinal, o primeiro, pois sem ele os outros não têm condição de existir.

Deixamos de falar sobre o trânsito – também a nossa Constituição do Estado reza que, nas escolas deve haver aulas de educação no trânsito. No trânsito transparece toda a educação (pra não dizer falta de educação) do brasileiro. Apesar de tirarem os documentos e aprenderem em pequenas aulas partes especiais do Código de Trânsito, agem como se, conhecendo a lei, tenham maior prazer de ignorá-la. E por que deixamos o problema apenas apontado? Porque tomaria todo o nosso tempo e não chegaríamos a tempo com nossa proposta de uma reforma da educação no Brasil, em profundidade e para ser comandado o programa por diversos governos, por diversas gerações para começar  a dar resultados. Escola para todos, a começar pelos pais – que estão muito precisados de noções do que é uma família e de que ela deve ser dirigida, educada,  seguida, amada – a família a célula mater da sociedade.

Para terminar, gostaria citar uma parte do artigo “O gargalo da educação básica no Brasil” (Folha de Pernambuco, 29/7/2013), de autoria de Roberto de Queiroz, dentro do qual transcreve estas palavras: “O prof. João Batista Araújo e Oliveira, presidente do Instituto Alfa e Beto, [...] salienta a importância de se ter senso de realidade em relação aos programas de ensino antes de adotá-los (ou não). Os municípios precisam analisar  cuidadosamente os programas de ensino que aplicam, a adequação do material didático e os mecanismos de apoio ao professor. Mas principalmente parar de  atrapalhar a escola, criando e recriando programas.” Depois de citar seu colega, Roberto de Queiroz, professor da rede pública há mais de doze anos na educação básica, dá sua opinião sensata: “O problema é que os governantes não visam o alvo. Atiram aleatoriamente para todos os lados. Por que não ouvir os gestores, os coordenadores pedagógicos e os professores, a fim de saber qual programa se adéqua melhor à realidade dos estudantes? Ou por que não dar autonomia aos municípios para que eles construam seu próprio currículo pedagógico, em consonância com as características locais e as diretrizes nacionais?”

O que foi dito para os municípios também é válido para os Estados. Não é fácil construir e executar um programa de caráter nacional, mas que contemple as diferenças locais, dando independência a municípios e Estados para colaborarem nessa empresa que salvará o Brasil, certamente. Porém, programas complexos assim exigem tempo e continuidade da política, dentro da estrita democracia. Por isto, não haverá referendo, não haverá plebiscito, não haverá reforma política que sirvam enquanto não fizermos a reforma da educação, com paciência, saber e destinação, pois o Brasil tem muito para ser uma grandiosa Nação.