Translate

quarta-feira, 18 de junho de 2014

O poeta

Roberto de Queiroz


Para Sigmund Freud, o poeta conhece, entre o céu e a terra, muitas coisas que o conhecimento acadêmico sequer sonha conhecer. É nosso mestre, no que tange ao conhecimento da alma, pois bebe de fontes que ainda não se tornaram acessíveis à ciência. No dizer de Admmauro Gommes, “o poeta é um fundador de mundos e está sempre dando respostas, como se alguém lhe pedisse explicação dos fatos da vida. Ele descreve o interior das coisas. Não como realmente são, mas como deviam ser. Por isso, o inventor não leva muito em conta os acontecimentos reais. Prefere criar sua própria versão, fazendo do feio bonito, do triste contente”.

Na visão de Jonson, poeta não é “aquele que escreve com métrica, mas o que finge e forma uma fábula, pois fabula e ficção são, por assim dizer, a forma e a alma de toda obra poética ou poema.” Paul Valéry, por sua vez, afirma que o poeta tenta representar ou restituir, “por meio da linguagem articulada, aquelas coisas ou aquela coisa que os gestos, as lágrimas, as carícias, os beijos, os suspiros procuram obscuramente exprimir.” Ademais, Mia Couto certifica que o poeta não é apenas o detentor de um gênero literário, e sim de uma filosofia, de um modo de saber de si próprio, dos outros e do mundo.

Resumindo, o poeta é alguém que está para além da ciência (bebe de fontes que a ciência ainda não bebeu). É um observador perspicaz (descreve o interior das coisas). É um fingidor por excelência – não um mentiroso (finge e reinventa a realidade, conforme sua própria versão, tornando-a ficção). Tenta representar, por intermédio da linguagem articulada, as coisas que o comportamento humano não consegue expressar. Está para além da literatura (transita pela filosofia, pelo próprio interior, pelo interior dos outros e revela o mundo conforme a própria observação). Não é um ser iluminado, e sim um ser supersensível, cuja sensibilidade é capaz de ir além dos cinco sentidos humanos (visão, audição, olfato, gustação e tato).

(Artigo publicado no Diario de Pernambuco, 18/06/2014, Opinião, p. B4)

quinta-feira, 1 de maio de 2014

Autores & Livros

Nelson Hoffmann e Inês Hoffmann


Roberto de Queiroz publicou livro que interessa, e muito, num mundo em que o livro perde terreno diariamente. O livro Leitura e escritura na escola: ensino e aprendizagem é uma abordagem consciente, séria e esclarecedora de quem é professor e trabalha com leitura em sala de aula. Basicamente, o livro é dividido em duas partes: objetivos e funções da leitura e o conhecimento prévio na leitura. Na primeira parte, pode-se observar [...] o “porquê”  e “para que” ler; na segunda parte, são comentados os pré-requisitos para uma boa leitura.

(Nelson Hoffmann e Inês Hoffmann. Autores & Livros. O Nheçuano, n. 21, mar./abr. 2014, p. 10)

Para adquirir esta obra, clique no link abaixo:

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

Ainda não perdemos a esperança

Francisco Miguel de Moura
Escritor, membro da Academia Piauiense de Letras, Teresina-PI, e da IWA-Interntional Writers and Artists Association-EUA       

Diante de toda a análise procedida, lembro dos símbolos de nosso país, ainda felizmente falando o português abrasileirado. O primeiro deles o Hino Nacional, depois a bandeira. Somente no desprezo pelo saber, pela escola, pelo livro pode chegar a uma suposição de ter-se perdido o hábito de o Hino Nacional nas Escolas há muito, muito tempo. E, como sabemos que cantar infunde na criança alegria e paixão, nossos homens atuais têm um desprezo enorme por nossa história e até debocham dos antepassados, como se nada tivéssemos com ele.  Só somos brasileiros por ocasião de jogos de Copa de Mundo ou de outros torneios internacionais? O que é isto? Não há mais inspetor escolar (não há mais inspetor de nada), e eu lembro de quando uma dessas autoridades chegava às escolas: todos os alunos levantavam e batiam palmas, enquanto, de pé e em silêncio, esperavam a ordem dele para sentarem. Havia respeito. Hoje o respeito foi para o ar: virou moda os assaltos à mão armada, os danos ao patrimônio público, os assassinatos sem solução policial... Sinceramente, eis o que todos nós sentimos: a vida perdeu muito do seu valor. E é ou não este um  dos direitos fundamentais do homem? Por sinal, o primeiro, pois sem ele os outros não têm condição de existir.

Deixamos de falar sobre o trânsito – também a nossa Constituição do Estado reza que, nas escolas deve haver aulas de educação no trânsito. No trânsito transparece toda a educação (pra não dizer falta de educação) do brasileiro. Apesar de tirarem os documentos e aprenderem em pequenas aulas partes especiais do Código de Trânsito, agem como se, conhecendo a lei, tenham maior prazer de ignorá-la. E por que deixamos o problema apenas apontado? Porque tomaria todo o nosso tempo e não chegaríamos a tempo com nossa proposta de uma reforma da educação no Brasil, em profundidade e para ser comandado o programa por diversos governos, por diversas gerações para começar  a dar resultados. Escola para todos, a começar pelos pais – que estão muito precisados de noções do que é uma família e de que ela deve ser dirigida, educada,  seguida, amada – a família a célula mater da sociedade.

Para terminar, gostaria citar uma parte do artigo “O gargalo da educação básica no Brasil” (Folha de Pernambuco, 29/7/2013), de autoria de Roberto de Queiroz, dentro do qual transcreve estas palavras: “O prof. João Batista Araújo e Oliveira, presidente do Instituto Alfa e Beto, [...] salienta a importância de se ter senso de realidade em relação aos programas de ensino antes de adotá-los (ou não). Os municípios precisam analisar  cuidadosamente os programas de ensino que aplicam, a adequação do material didático e os mecanismos de apoio ao professor. Mas principalmente parar de  atrapalhar a escola, criando e recriando programas.” Depois de citar seu colega, Roberto de Queiroz, professor da rede pública há mais de doze anos na educação básica, dá sua opinião sensata: “O problema é que os governantes não visam o alvo. Atiram aleatoriamente para todos os lados. Por que não ouvir os gestores, os coordenadores pedagógicos e os professores, a fim de saber qual programa se adéqua melhor à realidade dos estudantes? Ou por que não dar autonomia aos municípios para que eles construam seu próprio currículo pedagógico, em consonância com as características locais e as diretrizes nacionais?”

O que foi dito para os municípios também é válido para os Estados. Não é fácil construir e executar um programa de caráter nacional, mas que contemple as diferenças locais, dando independência a municípios e Estados para colaborarem nessa empresa que salvará o Brasil, certamente. Porém, programas complexos assim exigem tempo e continuidade da política, dentro da estrita democracia. Por isto, não haverá referendo, não haverá plebiscito, não haverá reforma política que sirvam enquanto não fizermos a reforma da educação, com paciência, saber e destinação, pois o Brasil tem muito para ser uma grandiosa Nação.

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Ideias para Ipojuca

Roberto de Queiroz

Em julho [...] [de 2013], participei do seminário “Fala, Ipojuca!”, realizado pela prefeitura municipal. O evento teve como foco dar vez e voz à população, a fim de que essa pudesse opinar sobre questões relacionadas à infraestrutura, saúde, educação, etc., e, por sua vez, apresentar sugestões de melhoria relativamente a esses setores.

Apresentei sugestões referentes aos três setores supramencionados. Mas aproveito este espaço para aduzir minha opinião relacionada à educação. Expus a ideia de que fosse construída uma biblioteca central com sede no município e outra exatamente igual em cada distrito, bem como que fosse construída uma biblioteca de menor porte em cada unidade escolar.

No tangente às bibliotecas centrais, sugeri que sejam redesenhados os modelos de bibliotecas existentes no município, com modificações nos conceitos físico e operacional. Tome-se como exemplo a instalação de equipamentos tecnológicos, climatização, área para convívio com as famílias, espaços infantis, auditórios, ampliação e atualização do acervo e contratação de bibliotecários.

O modelo sugerido permitirá que se utilize a biblioteca como um espaço de convivência na comunidade e como um meio tirar os jovens da ociosidade. Igualmente, permitirá que se utilizem os livros como um meio de promoção de noção de cidadania, cultura e lazer. E, desse modo, o modelo em comentário pode funcionar como uma forma plausível de incentivo à prática de leitura.

P. S.: Na ocasião, alguém deu a ideia da volta da Fliporto para Ipojuca. Resposta: “Isso não é possível.” Ora, a sigla Fliporto antes significava Festa Literária Internacional de Porto de Galinhas, agora significa Festa Literária Internacional de Pernambuco. Nada a ver. Não deveria ser Flipe? Assim, a Fliporto poderia voltar para Porto. Mas, já que “isso não é possível”, sugiro então que se crie a Flipojuca (Festa Literária de Ipojuca) ou a Fliipojuca (Festa Literária Internacional de Ipojuca).

(Texto publicado na Folha de Pernambuco, 04/12/2013, Opinião, p. 8)

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

O significado oculto dos contos de fadas

Roberto de Queiroz


Os contos de fadas (ou contos maravilhosos) são uma variação do conto popular (ou fábula). Constituem-se de narrativas curtas cujas histórias giram em torno de uma temática central e cujo objetivo é transmitir conhecimentos e valores culturais de uma geração a outra. Oriundos da tradição oral, transmitem a ideia de que o herói (ou heroína) tem de enfrentar grandes obstáculos antes de triunfar contra o mal.

São, em geral, iniciados pela expressão “era uma vez”, a fim de alertar o leitor sobre o fato de o tema narrado não se referir ao tempo e espaço presentes. Comportam personagens e situações que fazem parte do universo individual e cotidiano do ser humano (conflitos, medos e sonhos). Assim, a rivalidade entre gerações, a convivência entre crianças e adultos, a transitoriedade da vida (nascimento, crescimento, velhice e morte) e alguns sentimentos individuais (amor, ódio e inveja) são apresentados como uma forma de oferecer explicação para os conflitos do mundo em que vivemos e como um meio de criar formas de lidar com eles.

Há mais de um século, os contos de fadas e seu significado oculto têm sido estudados por seguidores de correntes diferentes da psicologia. Sheldon Cashdan, por exemplo, afirma que esses gêneros textuais abordam psicodramas da infância, espelhando lutas reais. Quer dizer, “embora o atrativo inicial de um conto de fadas possa estar em sua capacidade de encantar e entreter, seu valor duradouro reside no poder de ajudar as crianças a lidar com os conflitos internos que elas enfrentam no processo de crescimento” (Os 7 pecados capitais nos contos de fadas).

O autor prossegue dizendo que cada um dos principais contos de fadas é único, no sentido em que trata de uma predisposição falha ou doentia do eu. Ou seja, após a leitura da expressão “era uma vez”, descobrimos, de imediato, que esses textos falam de vaidade, gula, inveja, luxúria, hipocrisia, avareza ou preguiça – os “sete pecados capitais da infância”. E, embora um determinado conto de fadas possa tratar de mais de um “pecado”, um deles, geralmente, ocupa o centro da trama.

De resto, Cashdan salienta: “O modo pelo qual os contos de fadas resolvem esses conflitos é oferecendo às crianças um palco onde elas podem representar seus conflitos interiores. As crianças, quando ouvem um conto de fadas, projetam inconscientemente partes delas mesmas em várias personagens da história, usando-as como repositórios psicológicos para elementos contraditórios do eu.”

(Texto publicado na Folha de Pernambuco, 11/11/2013, Opinião, p. 12)

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

Leitura e escritura na escola: ensino e aprendizagem

Roberto de Queiroz

“O leitor encontrará nesse trabalho uma gama variada de tópicos que incluem os objetivos e as funções da leitura, o conhecimento prévio do leitor e algumas sugestões pedagógicas que o autor oferece aos que se interessam pelo desenvolvimento dessas habilidades de recepção e produção tão importantes no processo educativo.”

Araken Guedes Barbosa, Ph.D.

Professor do Departamento de Letras da UFPE


Para adquirir esta obra, clique no link abaixo:


sexta-feira, 2 de agosto de 2013

O gargalo da educação básica no Brasil

Roberto de Queiroz


A maioria dos estudantes brasileiros dos níveis fundamental e médio é reprovada em avaliações externas. Isso é fato veiculado pela mídia. Há quem afirme que, nesse caso, a responsabilidade é do professor. Em se tratando de professor que trabalhe em escola que lhe ofereça todo um suporte infraestrutural e pedagógico, essa afirmação pode ser verdadeira. Caso contrário, ela pode não fazer sentido, ou seja, a responsabilidade deixa de recair apenas sobre o professor.

É importante ter senso de realidade em relação aos programas de ensino antes de adotá-los (ou não). Os municípios precisam analisar cuidadosamente os programas de ensino que aplicam, a adequação do material didático e os mecanismos de apoio ao professor. “Mas, principalmente, parar de atrapalhar a escola criando e recriando programas” (João Batista Araújo e Oliveira, presidente do Instituto Alfa e Beto).

Como professor da rede pública, há mais de doze anos na educação básica, convivo com essa enxurrada de programas “criados” e “recriados”, aos quais João Batista se refere. Muitos deles com metodologias que se antagonizam, como é o caso do Alfa e Beto (usa o método fônico e é indicado para o pré-escolar I e II) e o Alfabetizar com Sucesso (usa o método silábico e é indicado para os anos iniciais do ensino fundamental), adotados por alguns municípios de Pernambuco. Há casos em que, paralelamente aos programas sobreditos, acrescenta-se o programa Via Escola (usa o método global e é indicado para os anos iniciais do ensino fundamental).

Não defendo a tese de que os métodos usados por esse ou aquele programa sejam ineficientes. O problema é que os governantes não visam o alvo. Atiram aleatoriamente para todos os lados. Por que não ouvir os gestores, os coordenadores pedagógicos e os professores, a fim de saber qual programa se adéqua melhor à realidade dos estudantes? Ou por que não dar autonomia aos municípios para que eles construam seus próprios currículos pedagógicos, em consonância com as características locais e as diretrizes nacionais?

Afinal, passou da hora de tomar medidas enérgicas aptas a controlar a qualidade do ensino público brasileiro. Para tanto, impõe-se abandonar o faz de conta e olhar de frente o gargalo da educação básica: infraestrutura precária, material didático deficitário e enxurrada de programas com metodologias antagônicas. Quer dizer, sem dar condições ao professor para desempenhar sua função, ninguém pode responsabilizá-lo pelo mau desempenho da maioria dos estudantes dos níveis fundamental e médio em avaliações externas.

(Artigo publicado na Folha de Pernambuco, 29/07/2013, Opinião, p. 10)