Translate

domingo, 18 de setembro de 2016

Conversa sobre leitura e escrita

Roberto de Queiroz


A expressão acima faz alusão ao assunto abordado em meu livro mais recente, cujo título é Leitura e escrita na escola: ensino e aprendizagem (edição revista e ampliada – editora Multifoco, 2016). Esse livro teve sua 1ª edição em 2013 e continha a penas dois capítulos. Recentemente, resolvi revisá-lo e ampliá-lo. Assim, nessa nova edição, fiz a revisão de alguns conceitos e referências, bem como o acréscimo de quatro novos capítulos. Agora, são seis no total.

O primeiro e o segundo capítulos reúnem questões teóricas, de fontes variadas, sobre os objetivos e funções da leitura, os níveis de conhecimento utilizados mediante o ato de ler e outras questões referentes à textualidade, necessárias para o desenvolvimento dos próximos tópicos. O terceiro e o quarto capítulos discorrem sobre o papel dos elementos de comunicação e das funções da linguagem no processo de recepção e produção de textos. O quinto capítulo aborda o discurso no texto ficcional escrito. O sexto e último capítulo trata de atividades de leitura e escrita realizadas no ensino fundamental e médio.

Prosseguido com essa conversa, compartilho com quem ainda não leu a obra em apreço a opinião de quem já a leu. No dizer de Iolita Campos (ex-professora de Linguística da FAMASUL-PE), “esta nova edição [...] traz para o leitor uma obra de suma importância para os estudiosos e usuários da língua materna enquanto instrumento de comunicação e interação. Com ênfase na leitura e produção de textos, o autor procura contribuir para a formação de leitores e escritores a partir da sala de aula, na relação professor/aluno, valorizando a bagagem cultural que o estudante possui e o constante estudo e reflexão que o educador pratica”.

Araken Guedes Barbosa (professor do Departamento de Letras da UFPE) afirma que “o leitor encontrará nesse trabalho uma gama variada de tópicos que incluem os objetivos e as funções da leitura, o conhecimento prévio do leitor e algumas sugestões pedagógicas que o autor oferece aos que se interessam pelo desenvolvimento dessas habilidades de recepção e produção tão importantes no processo educativo”.

Na opinião de Admmauro Gommes (professor do Departamento de Letras da FAMASUL-PE), no tangente ao ensino de leitura e escrita, a obra “aponta uma falha que distorce os encaminhamentos oriundos dos tantos encontros pedagógicos que acontecem no âmbito das formações continuadas nas redes públicas de ensino: um evidente afastamento entre a teoria e a prática”.

Para Nelly Carvalho (professora da Pós-Graduação em Letras da UFPE), não existe uma fórmula mágica nem única para ensinar a ler e escrever. “Cada professor deve buscar o caminho, de acordo com as características suas e da turma que leciona. É esse caminho que o professor Roberto de Queiroz [...] procura encontrar e construir com seu livro Leitura e escrita na escola: ensino e aprendizagem. [...] A sua leitura vale como uma forma de mostrar caminhos já trilhados para quem ainda não encontrou os seus”. 

(Texto publicado na Folha de Pernambuco,12/09/2016, Opinião, p. 7)

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

O novo acordo ortográfico

Roberto de Queiroz

O texto oficial do novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa foi assinado em Lisboa, em 16 de dezembro de 1990, por Portugal, Brasil, Angola, São Tomé e Príncipe, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique e, em 2002, por Timor-Leste. Foi aprovado no Brasil pelo Decreto Legislativo nº 54, de 18 de abril de 1995, e entrou em vigor a partir de 1º de janeiro de 2016. Está organizado em 21 bases e apenas 4 delas não sofreram alterações. Ei-las: “(ii) uso do h”, “(iii) grafemas consonânticos”, “(iv) sequências consonânticas” e “(vi) vogais nasais”. Todas as demais bases foram alteradas.

Todavia, as alterações introduzidas na ortografia da Língua Portuguesa, pelo atual acordo ortográfico, parecem-me mais político-comerciais que linguísticas. Elas pouco têm a ver com o modo de escrever das pessoas nativas dos países que aderiram a tal acordo. Por outro lado, as obras publicadas nesses países terão uma escrita similar, o que potencializará sua capacidade de difusão e, como consequência, o número de obras vendidas por eles será ampliado. Além disso, a similaridade em comentário pode dar credibilidade à Língua Portuguesa, tornando-a oficial perante a comunidade internacional, e ela pode tornar-se oficial no rol de línguas da Organização das Nações Unidas (ONU).

Por fim, vale ressaltar que o acordo em referência é apenas ortográfico, ou seja, limita-se à língua escrita. Não afeta nenhum aspecto da língua falada, nem elimina por completo as diferenças de ortografia observadas nos países em tela, que usam a Língua Portuguesa como idioma oficial. Trata-se de um pequeno passo intencional em direção à unificação da língua escrita usada por eles. O texto oficial desse acordo, porém, é complexo em alguns aspectos. Um deles é o uso do hífen. Uma rápida consulta não garante ao consulente a compreensão imediata do que ali é preconizado.

(Artigo publicado no Diario de Pernambuco, 18/02/2016, Opinião, p. A11)

sábado, 16 de janeiro de 2016

Água para o sertão

Roberto de Queiroz

Reprodução da internet / www.mgovbrasil.com.br
Num tempo em que “ternura” é tudo e é época de seca no sertão, conta-se aqui uma história genuinamente moral sobre a utilidade da primeira amoldada sobre a segunda.

O “cortês” federal lança os olhos em torno do céu (a brancura das nuvens está-se acinzentando):

– Espera aí, vai chover?

O “cortês” estadual e o municipal entreolham-se preocupados...

O “cortês” federal, mais que depressa, procura comunicar-se com São Pedro:

– Vai chover no sertão? – quer saber ele.

São Pedro sorri:

– Sossega, meu amigo. Este ano, durante muito tempo, vai chover no sertão.

– Este ano? – indaga o “cortês” federal. – A quem vou aferir “civilidade”?

São Pedro então percebe a preocupação daquele homem e, abruptamente, retruca:

– Quanto a isso, não sei. Mas, daqui a pouco, eu e o anjo acólito vamos abrir as válvulas das nuvens e liberar a chuva. Não quer ir conosco? A chuva este ano vai trazer muitas maravilhas ao sertão. Ajudando-nos, irrigando-o, já está fazendo sua parte.

Leve aceno de cabeça e (entre os dentes):

– “Obrigado” – é resposta do “cortês” federal.

São Pedro coça a cabeça. Como fazê-lo mudar de atitude?

Porém, antes mesmo de São Pedro concluir seu raciocínio, chegam o “cortês” estadual e o municipal.

Está formada a discussão.

São Pedro observa tudo de longe.

Um deles convida São Pedro para aderir a seu partido e faz-lhe uma proposta...

– Não dá para ouvir isso! – exclama São Pedro. – Vou expulsá-los daqui!

Eles protestam durante a expulsão.
  
E São Pedro, sem nenhum interesse, juntamente com o anjo acólito, abre as válvulas das nuvens e manda chuva ao sertão.

(Crônica publicada no jornal O Nheçuano, Roque Gonzales, RS, nov./ dez. 2015, p. 5)

sábado, 12 de dezembro de 2015

Os sete monstros de Camela

Texto produzido e ilustrado por estudantes do 5º ano da escola Municipal Agro Urbana, localizada no distrito Camela, município de Ipojuca/PE, sob orientação do professor Roberto de Queiroz. Tanto o texto quanto a ilustração em apreço resultam de um concurso que envolveu diferentes gêneros textuais e contemplou estudantes de toda a rede municipal de Ipojuca (da pré-escola ao 9º ano do ensino fundamental). Ambos foram aprovados pela comissão organizadora do certame e integram uma obra coletiva cujo título é “Ipojuca sob o olhar dos estudantes” (Imeph, 2015)*


Em uma noite de lua cheia, em um vilarejo chamado Camela, uma bruxa fazia leite para seus sete gatos. Sem que percebesse, sua verruga caiu dentro do leite. Depois do leite pronto, a bruxa o colocou em um pires para os gatos.

Mas o fato é que um mendigo observara a bruxa enquanto ela colocava o leite para os gatos. Assim, quando a bruxa entrou em sua casa, o mendigo atravessou a rua, chegou à casa dela e bebeu o leite.

Depois que o mendigo bebeu o leite, aconteceu um feitiço: ele se transformou em um bruxo muito malvado e começou a fazer maldade com as pessoas.

Após sete dias, o bruxo se transformou em leite de novo, então os gatos beberam o bruxo leitoso. Depois que beberam o bruxo, cada um dos sete gatos se transformou em um monstro voador (com cara de leão e rabo de dragão) que soltava fogo pela boca e passaram a aterrorizar os moradores.

Os sete monstros foram abatidos a tiros de rifles por sete caçadores, mas reza a lenda que até hoje assombram as pessoas em noite de lua cheia.

*(SILVA, Ludmilla Mendonça da Silva [texto]; MACEDO, Cleverson Divi de Barros [ilustração]. Os sete monstros de Camela. In: Ipojuca sob o olhar dos estudantes (obra coletiva). Fortaleza: Imeph, 2015, p. 34)

terça-feira, 17 de novembro de 2015

Roberto de Queiroz e a guinada poética

Admmauro Gommes*

Roberto de Queiroz / reprodução do Facebook
Roberto de Queiroz dá uma guinada em sua poesia. Com lastros de filosofia, sua poética adentra os caminhos da religiosidade e das essências atemporais do homem, que é o deslumbramento diante do Eterno. É isso que tenho repetido recentemente: a poesia não é para dizer nada, mas sempre diz tudo.

No poema “Pot-pourri”, o autor mostra mais que o conhecimento profundo da poética de nosso tempo, que enveredará sempre pelas metáforas cada vez mais fechadas. Nesta linha, poderia citar pelo menos uma dúzia, em seu texto, mas para demarcar o território deste novo tempo robertiano, transcrevo apenas  “... taça de carne de Salomão”. Na verdade, é preciso ter um conhecimento milenar, rompendo a costumeira interpretação do sagrado para se compreender apenas um verso.

Nisso Vital Corrêa de Araújo tem razão: um verso vale mais que uma odisseia. Correção: um verso grandioso, como qualquer desses de “Pot-pourri” do pernambucano Roberto de Queiroz.

Eis o poema em comentário, na íntegra:

“I. O olho do sol do polo Norte se fecha, congela o vento e cristaliza a neve: açúcar do confeito da Terra.

II. O olho do segundo sol se abre e realinha a órbita dos planetas: marionetes do dedo do Universo.

III. A mistificação do purgatório prognostica a idealização do inferno de Dante: consequência reflexa de crenças milenares.

IV. O achamento do paraíso perdido e a perda do paraíso recuperado de Milton ensaiam sobre a cegueira de Saramago: retrato fidedigno do materialismo.

V. Na taça de carne de Salomão, o vinho é certamente mais aromático e mais saboroso que nos pseudocristais modernos e provavelmente há ali toxidade zero: êxtase cromático do cântico dos cânticos.”

* Admmauro Gommes é poeta, professor de Língua Portuguesa, Teoria Literária e Literatura Brasileira da FAMASUL (Palmares/PE)

terça-feira, 18 de agosto de 2015

A lectoescritura em Roberto de Queiroz

Admmauro Gommes*


Para Horácio, um dos maiores poetas da Roma antiga, a poesia devia “instruir e deleitar, ou deleitar instruindo”. Atualizando esta sentença, diria Roberto de Queiroz que a leitura, para ser eficiente, deve deleitar enquanto instrui.

Em texto publicado na Folha de Pernambuco (15/05/2015, Opinião, p. 8), Queiroz reconhece que “os estudantes da educação básica das escolas públicas brasileiras demonstram não gostar de ler nem de escrever”. Gostar ou não gostar, parece-me não ser bem a questão, mas os motivos pelos quais não se gosta. Na sequência, o autor aponta uma falha que distorce os encaminhamentos oriundos dos tantos encontros pedagógicos que acontecem no âmbito das formações continuadas nas redes públicas de ensino: um evidente afastamento entre a teoria e a prática. Há ainda outros pontos nevrálgicos que inibem o aluno diante do texto escrito, mas um deles se pode destacar com o reconhecimento da maioria.

Uma das constatações mais perturbadoras, para quem pensa em transformar o mundo através da educação, é que nem sempre o problema está com o estudante. É preciso mudar antes a cabeça do professor. Roberto entende que a “aversão à leitura e à escritura por esses estudantes pode resultar do modo como essas atividades são trabalhadas na escola, quer dizer, é possível que elas sejam trabalhadas sem que se leve em conta a realidade etária e sociocultural deles”. Por este prisma, nota-se que a situação é mais intrigante. Sem conhecer “essa” realidade, todo ensino cai no vazio, sem nenhuma ressonância positiva, pois o entendimento do aluno não alcança a linguagem do professor. Enquanto não se aproximarem estes elementos, mesmo com a presença do emissor e do receptor, a mensagem não é decodificada. E, naturalmente, a prática de leitura não proporciona o aprendizado da escritura, como diz o autor.

Neste ponto da discussão, alinham-se Horácio e Roberto. Este defende a leitura como instrumento de prazer (Leitura e escritura na escola: ensino e aprendizagem, p.19) e cita Tatiana Belinky, Daniel Pennac, William Roberto Cereja e Marcos Bagno como apoiadores dessa premissa. Queiroz chega à conclusão que ler por obrigação “é um dos motivos para o fato de o prazer da leitura até agora ser pouco acentuado no Brasil e as escolas formarem um número insignificante de leitores” (op. cit. p. 21).

Também entendo deste modo. E acrescento: O prazer da leitura deve contaminar primeiro o professor, depois alastrar-se pelos corredores da escola, envolvendo diretores, coordenadores e, inevitavelmente, o estudante. Se este caminho for percorrido, Horácio e Roberto de Queiroz hão de se contentar.

* Admmauro Gommes é poeta, professor de Língua Portuguesa, Teoria Literária e Literatura Brasileira da FAMASUL (Palmares/PE)

(Texto publicado na Folha de Pernambuco, 18/08/2015, Opinião, p. 6)

Para mais detalhes, clique neste link: http://loja.tray.com.br/loja/produto-32653-70348

quinta-feira, 11 de junho de 2015

Educação Física no Ensino Fundamental

Roberto de Queiroz


Defende-se a tese de que a Educação Física seja componente curricular específico na primeira fase do Ensino Fundamental. Há secretários de educação municipais e estaduais e funcionários do Ministério da Educação que resistem a essa ideia. Os opositores alegam, entre outras coisas, que, nos anos iniciais de escolaridade, não há um professor específico para cada componente curricular. Assim, o professor lotado nessa modalidade de ensino atende às necessidades dos estudantes em todos os componentes curriculares e, por sua vez, devem atendê-las também quanto às aulas de Educação Física.

As autoridades educacionais responsáveis pela elaboração/manutenção dos currículos escolares brasileiros estão convencidas de que a Educação Física é algo absolutamente desnecessário no processo de formação dos estudantes da primeira fase do Ensino Fundamental. Porém estão totalmente equivocadas. Compete a nós, professores, comprovar isso. O fato é que nossos argumentos parecem ser ainda muito frágeis.

Não dou crédito à defesa corporativista da Educação Física como componente curricular no Ensino Fundamental. Os profissionais da área devem ser convincentes quanto a sua necessidade e importância para o desenvolvimento social e intelectual dos estudantes matriculados na modalidade de ensino em tela. E devem fazer isso por meio de argumentos científica e filosoficamente sólidos, no intuito de demonstrar a devida competência para ministrá-la.

É óbvio que o professor da primeira fase do Ensino Fundamental, o qual ministra aulas de seis componentes curriculares (Língua Portuguesa, Matemática, História, Geografia, Ciências e Arte, respectivamente), não se sente preparado, nem seguro, e não reúne as condições estruturais para dar conta dos conteúdos de Educação Física. E, desse modo, os estudantes acabam arcando com o prejuízo.

Defendo, portanto, a ideia de que, nessa modalidade de ensino, sejam contratados professores específicos por componente curricular. Inclusive, de Educação Física. Não vejo mal algum em, já a partir do primeiro ano do Ensino Fundamental, os estudantes terem contato com professores de componentes curriculares específicos. Não há provas de que tal contato os prejudique de alguma forma. Pelo contrário, com a redução de sete componentes curriculares para um, em sua jornada semanal, o professor terá mais tempo para ler, estudar e planejar suas aulas. E os estudantes, logicamente, serão beneficiados com isso.

(Artigo publicado no jornal Gazeta do Oeste, Mossoró/RN, em 11/06/2015, Opinião, p. 2)