Roberto de Queiroz
100 g de salsa100 g de hortelã
500 g de cuscuz marroquino60 g de margarina
Cada uma das funções básicas da linguagem no processo de comunicação humana é centrada em um dos elementos básicos implicados nesse processo, a saber: (1) emissor (ou destinador); (2) receptor (ou destinatário); (3) mensagem; (4) canal (ou veículo de comunicação); (5) código; (6) referente (ou contexto). Mas é raro encontrar um texto em que haja apenas um desses elementos, o que ocorre é que um ou outro elemento seja dominante. Com base nessas informações, pode-se dizer que no processo de comunicação humana há basicamente seis funções da linguagem, as quais seguem relacionas:
(1) Função expressiva (ou emotiva): é centrada no emissor (ou destinador) da mensagem. Essa função da linguagem expressa os sentimentos, emoções e julgamentos do “eu” (do mundo interior) do emissor, bem como apresenta uma linguagem subjetiva e, às vezes, prima pelo uso de metáforas e interjeições, para enfocar as sensações do emissor e como marcas características de entonações. Com o trecho a seguir, extraído de um livro de Rainer Maria Rilke, procura-se exemplificá-la.
De passagem por Worpswede, perto de Bremen, 16 de julho de 1903.
Deixei Paris há alguns dias, bastante indisposto e cansado, e vim para esta grande planície nórdica cuja vastidão, silêncio e céu hão de curar-me outra vez. Mas entrei logo numa longa chuva, que somente hoje deixou um pouco de claridade sobre o país sacudido de inquietação. Aproveito para cumprimentá-lo, caro senhor (RILKE, 1997, p. 36, grifos meus).
Nesse trecho, a função expressiva (ou emotiva) da linguagem está marcada pelo uso da primeira pessoa do discurso (eu), expressa pelas desinências verbais (-ei, -m, -o) e pelo pronome pessoal reto (me), bem como pelo uso de metáforas (“vastidão, silêncio e céu”, “país sacudido de inquietações”, etc.), para caracterizar o país em que o emissor estava (Alemanha).
(2) Função conativa (ou apelativa): é centrada no receptor (ou destinatário). Nessa função da linguagem, a intenção do emissor é persuadir o receptor. Os elementos sintáticos mais evidentes são o uso de verbos no modo imperativo e de vocativos. Com o texto a seguir, extraído da revista JC, procura-se exemplificá-la.
Cordeiro com cuscuz marroquino
Ingredientes
Para o cordeiro
1 pernil de cordeiro com osso
3 dentes de alho
2 folhas de louro
1 colher de chá de pimenta síria
1/2 colher de sopa de sal
1 xícara de azeite
250 ml de vinho branco seco
Para o cuscuz marroquino
400 ml de água
2 tabletes de caldo de galinha
Modo de preparo
Tempere o pernil com os temperos, o vinho e o azeite. Deixe em repouso por 24 horas. Leve ao forno médio a 150 graus por uma hora. Depois de assado, deixe esfriar e corte em cubos grandes ou em fatias. Em uma panela, dilua o caldo de galinha em 400 ml de água fervente. Com o fogo ligado, acrescente o cuscuz aos poucos, mexendo sempre, até que toda água seja absorvida. Tampe por dez minutos. Coloque a margarina e vá mexendo, até o ponto de uma farofa. Sirva com o cordeiro (Forneira in ALBERTIM, 2008, p. 16, grifos meus).
Nesse texto, a função conativa (ou apelativa) da linguagem está basicamente caracterizada pelo uso de verbos no modo imperativo afirmativo (“tempere”, “deixe”, “leve”, “corte”, “dilua”, “acrescente”, “tampe”, “coloque”, “vá” e “sirva”).
(3) Função referencial ou (denotativa): é centrada no referente (ou contexto), isto é, no assunto da mensagem. Nessa função da linguagem, a intenção do emissor é emitir informações acerca do referente. Com o trecho a seguir, extraído do jornal Diario de Pernambuco, procura-se exemplificá-la.
“Pílula antibarriga” chega ao mercado
Mal foi lançado no mercado brasileiro, um novo medicamento indicado para tratamento da obesidade associada a fatores de risco cardiometabólico já chega fazendo barulho. Batizada de Acomplia, a nova droga ganhou fama rapidamente no mundo por sua capacidade de reduzir a gordura abdominal – um dos efeitos do tratamento –, o que automaticamente lhe rendeu o a apelido de “pílula antibarriga”. Mas os especialistas advertem: o novo remédio, que chega às farmácias do país esta semana, não é uma panacéia. Mais: seu uso com finalidade estética não é conhecido e, portanto, é contra-indicado (ARAGÃO, 2008, C7).
Nesse trecho, prevalece a função referencial ou (denotativa) da linguagem, pois o emissor informa o receptor sobre um novo medicamento lançado no mercado brasileiro (a Acomplia), indicado para tratamento da obesidade, bem como sobre o que ocasionou a fama mundial dessa droga e o que especialistas advertem sobre ela.
(4) Função fática (ou de contato): é centrada no canal (ou veículo de comunicação). Nessa função da linguagem, a intenção do emissor é instaurar, manter ou interromper a comunicação (ou contato) com o receptor. Com o texto a seguir, extraído de um CD de Raimundo Fagner, procura-se exemplificá-la.
SINAL FECHADO
Olá, como vai?
Eu vou indo, e você, tudo bem?
Tudo bem, eu vou indo, correndo,
Pegar meu lugar no futuro, e você?
Tudo bem, eu vou indo em busca de um sono
Tranquilo, quem sabe?
Quanto tempo...
Pois é, quanto tempo...
Me perdoe a pressa
É a alma dos nossos negócios...
Oh! não tem de quê.
Eu também só ando a cem.
Quando é que você telefona,
Precisamos nos ver por aí.
Pra semana, prometo, talvez
Nos vejamos, quem sabe?
Quanto tempo...
Pois é, quanto tempo...
Tanta coisa que tinha a dizer,
Mas eu sumi na poeira das ruas.
Eu também tenho algo a dizer,
Mas me foge a lembrança.
Por favor, telefone, preciso beber
Alguma coisa rapidamente.
Pra semana...
O sinal...
Eu procuro você...
Vai abrir, vai abrir...
Prometo, não esqueço.
Por favor, não esqueça, não esqueça, não esqueça.
Adeus...
(VIOLA in FAGNER, s.d.)
Nesse texto, prevalece a função fática da linguagem, pois o emissor e o receptor agem mutuamente entre si. Suas falas, inclusive, cumprem a função de estabelecer, e manter a comunicação (ou contato).
(5) Função metalinguística: é centrada no código. Nessa função da linguagem, a intenção do emissor é basicamente formular conceitos e/ou precisar o código. Quer dizer, a metalinguagem é uma linguagem que fala da própria linguagem. Os verbetes de dicionário e os conceitos gramaticais, por exemplo, evidenciam essa função da linguagem. A fim de elucidar o que vem dito, segue um trecho para análise, extraído de um livro de Evanildo Bechara.
Substantivo é a classe de palavra que se caracteriza por significar o que convencionalmente chamamos objetos substantivos, isto é, em primeiro lugar, substâncias (homem, casa, livro) e, em segundo lugar, quaisquer outros objetos mentalmente apreendidos como substâncias, quais sejam qualidades (bondade, brancura), estados (saúde, doença), processos (chegada, entrada, aceitação) (BECHARA, 2001, p. 70, grifos do autor).
Nesse trecho, o objetivo do emissor é explicar, com clareza, o significado da palavra substantivo. Para alcançar seu objetivo, ou seja, para não deixar seu receptor com dúvidas, ele precisa o código utilizado. Por exemplo: “Substantivo é a classe de palavra que se caracteriza por significar o que convencionalmente chamamos objetos substantivos, isto é, em primeiro lugar, substâncias (homem, casa, livro) [...]”, e assim por diante.
(6) Função poética: é centrada na própria mensagem, ou seja, suplementa o sentido da mensagem, por meio de seus elementos estruturais (sonoridade, ritmo, jogos de idéias e de imagens, etc.). Essa função da linguagem é dominante em poemas, mas abrange também outros gêneros textuais, como, por exemplo, anúncios publicitários e políticos. No intuito de ilustrar o que vem dito, segue um texto para análise, de autoria de Olavo Bilac.
Rio abaixo
Treme o rio, a rolar, de vaga em vaga...
Quase noite. Ao sabor do curso lento
Da água, que as margens em redor alaga,
Seguimos. Curva os bambuais o vento.
Vivo há pouco, de púrpura sangrento,
Desmaia o Ocaso. A noite apaga
A derradeira luz do firmamento...
Rola o rio, a tremer, de vaga em vaga.
Um silêncio tristíssimo por tudo
Se espalha. Mas a lua lentamente
Surge na fímbria do horizonte
E o seu reflexo pálido, embebido
Como um gládio de prata na corrente,
Rasga o seio do rio adormecido.
(BILAC in FARACO et MOURA, 2002, p. 266)
Nesse texto, a função poética da linguagem está caracterizada através dos elementos estruturais do poema, como, por exemplo, o vocabulário escolhido rigorosamente, a composição das estrofes (dois quartetos e dois tercetos), a disposição das rimas (cruzadas e emparelhadas), o ritmo (versos decassílabos com pausas regulares), os jogos de idéias e de imagens (os verbos estão no presente do indicativo, o que denota que o poema é fruto da observação, e não da imaginação), e assim por diante.
Referências bibliográficas
ARAGÃO, Juliana. “Pílula antibarriga” chega ao mercado. Diario de Pernambuco. Recife, 20 abr. 2008, Vida Urbana, C7.
BECHARA, Evanildo. Substantivo. In: _________. Gramática escolar da língua portuguesa. Rio de Janeiro: Lucerna, 2001. cap. 4. p. 70.
BILAC, Olavo. Rio abaixo. In: FARACO, Carlos Emílio et MOURA, Francisco Marto. Português: série novo ensino médio. São Paulo: Ática, 2002. p. 266. (Questões de vestibulares – Anhembi-Morumbi-SP)
Forneira, Dom Ferreira. Cordeiro com cuscuz marroquino. In: ALBERTIM, Bruno. Mesa posta. Revista JC, Recife, ano 3, n. 138, p. 16., 23 mar. 2008.
RILKE, Rainer Maria. Cartas a um jovem poeta. Trad. Paulo Rónai. 27. ed. São Paulo: Globo, 1997, p. 36.
VIOLA, Paulinho da. Sinal fechado. In: FAGNER, Raimundo. 20 super sucessos. Polydisc, Rio de Janeiro, s.d.







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